Os bancos brasileiros entraram na crise como os mais lucrativos do mundo, dentro de uma amostra de países acompanhada pelo Banco Central. Também estavam bem capitalizados, apesar da rápida expansão do crédito. O retorno médio dos bancos no Brasil foi de 23,5% do patrimônio líquido no primeiro semestre, acima do observado no ano imediatamente anterior em países como o México (20,2%), África do Sul (18,4%), Chile (16,2%), Canadá (12,5%) e Argentina (9,7%).

Os dados constam do relatório semestral do BC sobre a estabilidade financeira, um documento com 176 páginas que ajuda a entender por que os bancos brasileiros, do ponto de vista de solvência, têm até agora enfrentado relativamente bem a crise, comparado com outras economias. Um dos flancos do relatório é não abordar o quesito liquidez bancária, principalmente o descasamento entre os prazos de captação de depósitos e dos empréstimos, que estão no centro da crise atravessada pelos bancos pequenos e médios.

A data-base do relatório do BC é junho de 2008, portanto antes da quebra do Lehman Brothers, um marco na crise. Ainda vai levar alguns meses para o BC concluir seu diagnóstico do segundo semestre, porque os bancos ainda estão fechando os balanços.

No primeiro semestre, mostra o relatório, o conjunto dos bancos teve uma queda, de 17,3% para 15,7%, no índice de Basileia, que mede quanto de capital próprio os bancos têm para cobrir perdas inesperadas em suas operações, desde crédito até instrumentos cambiais e derivativos. O indicador caiu sobretudo porque os bancos passaram a aplicar menos em títulos públicos, considerados menos arriscados, e emprestaram mais, aumentando sua exposição a riscos. Apesar da queda, o percentual ainda é confortável frente ao mínimo exigido, de 11%.

O BC fez, no relatório, os chamados testes de estresse para verificar se os bancos se tornariam insolventes caso enfrentassem uma conjuntura econômica adversa. Numa das simulações, o BC supõe que os bancos fossem obrigados a reduzir em dois degraus todos os créditos classificados em sua carteira, numa métrica com nove notas, de AA a H. Nessa hipótese, o indice de Basiléia ainda permaneceria um pouco acima de 14%. Se, além da deterioração da carteira de crédito, houvesse uma valorização de 95,8% do dólar, o índice de Basiléia cairia mais 2,3 pontos percentuais (pp.), permanecendo acima do mínimo. Se, adicionalmente, houvesse uma alta de cerca de 42% nos juros futuros, algo como a taxa chegar a 22% ao ano, o índice de Basiléia encolheria 5,8 pontos percentuais. O sistema cairia abaixo do mínimo de 11%, mas sem ficar insolvente.

Um dos pontos fracos do sistema bancário brasileiro, aponta o estudo do BC, é sua baixa eficiência. No primeiro semestre de 2008, as despesas administrativas anualizadas dos bancos equivaliam a 4,2% dos ativos administrados. Houve melhora em relação aos 5,1% observados em 2007 ou aos 5,8% de 2005. Mas, pelos dados mais recentes coletados pelo BC, referentes a 2005, o Brasil estava em situação pior que o Chile (2,7%), a Espanha (1,1%) e o Canadá (2,6%), mas em posição melhor do que o México (4,6%).

Fonte: Valor Econômico/ Alex Ribeiro