A crise internacional levou os bancos médios a pisarem no freio do crédito no último trimestre de 2008, ficando atrás da média de mercado, depois de alguns anos puxando o ritmo dos negócios. Vários bancos chegaram a reduzir a oferta de crédito diante do aperto de liquidez e do aumento do risco. Outra providência foi o aumento das provisões para devedores duvidosos.

Apesar disso, o lucro continuou crescendo em ritmo expressivo, com raras exceções. Esse é o quadro que está emergindo dos primeiros balanços de bancos médios divulgados nos últimos dias.

De toda forma, para o vice-presidente do BicBanco, Milto Bardini, o ano de 2008 foi "excelente" porque os resultados obtidos permitiram reforçar as provisões para um futuro que ainda incerto.

A mesma cautela revela Carlos Dayan, diretor executivo do Daycoval: "O apetite por risco ainda não voltou, apesar da melhora da liquidez neste início de ano. Não sabemos se o Brasil vai crescer ou entrar em recessão. Não sabemos como nossos clientes vão se comportar nem como vão lidar com a dívida acumulada em tempos de bonança. O cenário está longe de ser claro".

Um ponto em comum dos dois bancos, de porte e linha de negócios diferentes, foi o reforço das provisões para crédito.

O BicBanco constituiu no quarto trimestre provisões extras no montante de R$ 101,6 milhões brutos (R$ 60 milhões líquidos). Todos os créditos classificados de C a G (atrasos acima de 60 dias) tiveram as provisões reforçadas. As despesas com provisões acumularam R$ 277,3 milhões no ano, o dobro do montante de 2007. "Temos a sensação de que a crise está chegando no Brasil em etapas progressivas e não se manifestou ainda totalmente", explicou Bardini.

Outra precaução do Bic foi conter o crédito. A carteira fechou o ano em R$ 8,1 bilhões, com aumento de 5,9% em relação a dezembro de 2007, mas 16,6% abaixo da posição de setembro. Além disso, está reduzindo a carteira de varejo (consignado e crédito pessoal), para de focar no middle.

Por esses motivos, o lucro líquido contábil do quarto trimestre ficou em R$ 20,5 milhões, 80% inferior ao do terceiro trimestre. No ano, o lucro líquido acumulado foi de R$ 320,5 milhões, respeitáveis 76,2% acima de 2007.

O Daycoval, segundo Dayan, desacelerou o crédito para engordar o caixa e esperar um horizonte mais claro. Composta por operações com empresas, financiamento de veículos e consignado, a carteira diminuiu 14% no quatro trimestre para fechar o ano em R$ 3,98 bilhões, 14,5% acima do patamar de dezembro de 2007. A redução recaiu sobre as operações com empresas que giram mais rápido.

As provisões para crédito cresceram 51,6% do terceiro para o quarto trimestre. No ano, as despesas com provisões aumentaram 190,6% para R$ 176,8 milhões. Assim, o lucro líquido contábil do banco caiu 56,8% no quarto trimestre, para R$ 20,4 milhões, acumulando no ano R$ 200,2 milhões, 2,8% a menos do que em 2007.

Tanto o Bic quanto o Daycoval informaram que a liquidez melhorou neste ano.

Fonte: Valor Econômico / Maria Christina Carvalho