A economia mundial está passando por uma verdadeira convulsão. O panorama visto daqui dos EUA -o epicentro da crise- é simplesmente tenebroso. Está havendo muito sofrimento -e haverá mais. Países, empresas e pessoas perfeitamente inocentes, que vinham conduzindo suas atividades de forma responsável, estão sendo arrastados pelo turbilhão financeiro. Nunca a especulação selvagem fez tamanho estrago em escala internacional.

Um consolo: a turma da bufunfa, especialmente nos EUA e na Europa, está pagando caro e vai pagar ainda mais pelos abusos e falcatruas. Um grande número de medalhões das finanças internacionais estão ficando ou já ficaram totalmente desmoralizados. Não me surpreenderia se diversos bufunfeiros de grande porte acabassem atrás das grades.

As autoridades governamentais que permitiram a especulação desenfreada dos anos recentes e o posterior colapso financeiro em 2007-2008 também estão pagando um preço político elevado -mas a conta total ainda vai chegar e será pesadíssima. Nos países desenvolvidos, muitos dos atuais governantes e partidos no poder serão obrigados a sair de cena, cedo ou tarde. Já temos exemplos disso: aqui nos EUA, o Partido Republicano.

Permita-me, leitor, mencionar um outro exemplo marcante e menos conhecido. Todos merecem respeito e têm o direito de errar. Mas o caso do atual primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, parece especial. O sr. Brown foi ministro das Finanças durante dez anos, até meados de 2007. Em seguida, logo antes da eclosão da crise financeira, foi alçado à posição de primeiro-ministro, cargo que ocupa desde então.

Ou seja: o sr. Brown comandou as finanças britânicas no período de gestação da monumental crise econômico-financeira. O Reino Unido é um dos países mais atingidos por essa crise. A aprovação popular ao sr. Brown e ao seu partido sofreu um declínio dramático.

Por que estou dizendo tudo isso? É que o sr. Gordon Brown, como se nada tivesse acontecido, vem posando desde o final de 2008 de reformador do mundo. Vem apresentando propostas ambiciosas de reforma da arquitetura financeira mundial. Será o anfitrião do encontro de chefes de Estado do G20 em Londres no dia 2 de abril.

Países em desenvolvimento, como o Brasil, estão em um momento muito particular. Por um lado, temos que nos defender dos impactos da crise externa e das manobras de alguns países desenvolvidos que, se puderem, farão reformas e tomarão medidas contrárias aos nossos interesses. Vários desses países estão em situação calamitosa e alguns deles parecem propensos a avançar o sinal e a passar por cima dos menos desenvolvidos. Por outro lado, a crise atual, que tem origem nos EUA e na Europa desenvolvida, enfraqueceu esses países do ponto de vista econômico, político e moral.

O Brasil tem um peso específico nada desprezível. Estamos sendo atingidos pela crise, mas a nossa situação econômica é relativamente boa. Tanto aqui no FMI como no G20, o nosso poder de fogo aumentará bastante, se soubermos nos aliar a outros países em desenvolvimento (Índia, China, Rússia, Argentina, por exemplo) e também a países desenvolvidos que compartilhem nossas posições em determinados temas (Japão e EUA, por exemplo). Se essas alianças funcionarem, poderemos obter avanços em termos de reforma da arquitetura internacional que seriam impensáveis em tempos normais.
É o que estamos tentando. 

Artigo de Paulo Nogueira Batista Jr., diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago).

Fonte: Folha de São Paulo