Sindicatos abriram uma temporada de protestos de rua na Europa. Desde o mês passado, manifestantes liderados por entidades de trabalhadores têm saído às ruas quase toda semana para exigir dos governos a adoção de medidas que evitem demissões, cortes salariais e de benefícios sociais por conta da crise financeira. A região está sendo duramente atingida pela recessão mundial.

Hoje, uma greve geral convocada por oito federações sindicais deve comprometer o funcionamento de escolas, hospitais, do sistema de transporte e até a produção de energia das usinas nucleares em várias cidades da França, a segunda maior economia da zona do euro. O objetivo é cobrar do presidente Nicolas Sarkozy medidas mais amplas dos que a já anunciadas para proteger os trabalhadores e as famílias de baixa renda dos desdobramentos da crise. Líderes sindicais esperam que o ato reúna mais gente do que o ato realizado em janeiro, quando 2,5 milhões de franceses foram às ruas e acabaram forçando Sarkozy a fazer concessões adicionais a um pacote de estímulo lançado pouco antes (leia texto ao lado).

Além da França, na Alemanha, a maior economia da Europa, 15 mil trabalhadores da Opel – empresa ligada à General Motors – protestaram em 26 de fevereiro pedindo que a montadora americana engavetasse planos de fechamento de unidades na Europa.

Cinco dias antes, quase 100 mil pessoas ocuparam as ruas de Dublin, na República da Irlanda, num ato contra a forma com que o governo vinha lidando com a crise e particularmente contra os planos de aplicar uma dedução das aposentadorias dos 350 mil funcionários públicos.

Ainda em fevereiro, trabalhadores do setor de energia no Reino Unido já haviam organizado uma série de protestos e paralisações. O alvo das queixas era a contração de trabalhadores estrangeiros que aceitavam desempenhar a mesma função dos britânicos por salários menores. As mobilizações contra a mão-de-obra estrangeira chegaram ao fim em 5 de fevereiro quando a francesa Total aceitou contratar mais britânicos na sua refinaria de petróleo de Lindsey.

O desemprego é um dos efeitos mais visíveis da crise britânica. Em fevereiro, o número de desempregados passou dos 2 milhões, o maior patamar desde 1997.

No dia 6 de março, foi a vez de trabalhadores poloneses – principalmente os da indústria bélica – saírem às ruas para defenderem seus empregos. O ato reuniu cerca de 10 mil pessoas que protestavam contra demissões no setor após o governo ter ter enxugado o orçamento da Defesa. Em Gdansk, 3 mil trabalhadores protestaram contra os planos da empresa de energia Energa de corte de postos de trabalho.

Uma semana depois, dezenas de milhares de trabalhadores portugueses protestaram em Lisboa contra as medidas que o governo do primeiro-ministro, o socialista José Sócrates, vinha adotando. Sindicatos classificavam as políticas como responsáveis pelo aumento do desemprego e que além disso beneficiavam os mais ricos.

Trabalhadores também saíram às ruas na Bósnia, Bulgária, República Tcheca, Grécia, Hungria, Lituânia, Letônia, Montenegro, Rússia e Ucrânia.

A Confederação Sindical Europeia (ETUC, na sigla em inglês) lançou uma agenda de "dias de ação" contra a crise para maio em pelo pelo menos quatro capitais do continente: Madri, Bruxelas, Berlim e Praga. Os atos da campanha intitulada "Lute Contra a Crise – coloque as pessoas em primeiro lugar", estão marcados para os dias 14, 15 e 16 de maio.

"Movimentos sociais de protesto estão ocorrendo em muitos países europeus – como França, Islândia e Lituânia – à medida que os europeus se veem pagando o preço por uma crise provocada por uma desenfreada especulação", diz a entidade no material da campanha.

A confederação – que diz reunir 82 organizações e representar os interesses de 60 milhões de trabalhadores sindicalizados na Europa – defende o que chama de um Novo Contrato Social que priorize os trabalhadores e os cidadãos e que se concentre no emprego, no poder de compra e nos direitos fundamentais dos europeus.

Apesar do apelo provocado pelas manifestações recentes, o secretário-geral da ETUC, John Monks, diz que o sindicalismo europeu deve ir além do velho entusiasmo por protestos de rua. "Dado o momento ruim do mercado de trabalho e o desespero dos empregadores, esta não é hora de grandes militâncias", disse ele recentemente. "É hora de exigir estruturas de benefícios sociais, treinamento, consultorias e a adoção de sistemas mais justos de pagamento, de modo que quando a economia se recupere não haja a repetição de um surto de desigualdade visto na década passada."

Em uma matéria publicada semana passada, a revista britânica "Economist", diz que os períodos de "crise do capitalismo dão às organizações sindicais a chance de reviver e de se reinvetar".

Nos EUA, os sindicatos não realizaram até agora manifestações contra a crise como as da Europa. Seu campo de ação passou a ser outro. "Desde que Obama tomou posse em janeiro, John Sweeney, o secretário-geral do AFL-CIO, visitou a Casa Branca pelo menos uma vez por semana. George Bush o convidou uma vez em oito anos", diz a revista.

Os principais sindicatos americanos ajudaram a pressionar o Congresso a aprovar o pacote de estímulo econômico proposto por Obama. Aliados a siderúrgicas americanas, eles se empenharam especialmente para assegurar vantagens como a cláusula do pacote que garante preferência a empresas americanas na contratação dos projetos financiados pelo plano.

O pacote de Obama foi aprovado no início de fevereiro. Na época em que o plano estava em discussão no Congresso, os sindicatos organizaram algumas reuniões locais, para discutir o pacote em redutos eleitorais de congressistas que resistiam às medidas.

Nos EUA, apenas 12% da força de trabalho é sindicalizada. As regras do mercado de trabalho são muito flexíveis e a proteção para os trabalhadores desempregados é limitada. O seguro-desemprego foi ampliado temporariamente por causa da crise, de 26 para 59 semanas. E o pacote incluiu incentivos para ajudar os desempregados a pagar plano de saúde.

Fonte: Valor Econômico / De São Paulo, colaboração de Ricardo Balthazar