As estatísticas do Banco Central (BC) confirmam as queixas de pessoas físicas e, principalmente, pequenas e médias empresas sobre a dificuldade para obter empréstimos nos últimos meses. Em fevereiro, as novas concessões de crédito caíram 7,7% em relação a janeiro. No bimestre, a baixa é mais expressiva: 23,9% na comparação com igual período de 2008. Segundo analistas, há várias razões para que as operações de empréstimos ainda não tenham retomado ritmo próximo ao que vigorava antes do agravamento da crise. Uma delas é a concentração do setor bancário no Brasil.

Estudo da agência de classificação de risco Austin Rating revela que, no fim de 1994 (ano de implementação do Plano Real), os cinco maiores bancos brasileiros respondiam por 56,8% do crédito. Em dezembro de 2008, esse porcentual havia disparado para 77,5%. Isso ocorreu por causa de dezenas de fusões e aquisições nos últimos anos, além de quebras no meio do caminho, como a do Banco Santos. No fim do ano passado, por exemplo, Itaú (então 2º do ranking) e Unibanco (6º) se fundiram e o Banco do Brasil (1º) comprou a Nossa Caixa (10º) e metade do Votorantim (8º).

O problema foi agravado com os efeitos da crise internacional nos pequenos e médios bancos brasileiros, além do esvaziamento das operações das filiais de bancos estrangeiros que estão com problemas nas matrizes. Na avaliação de uma fonte do governo existem hoje apenas cinco bancos comerciais atuando fortemente na concessão de empréstimos no País: Itaú-Unibanco, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa.

"Quando há mais instituições no mercado, a retomada de uma crise tende a ser mais rápida, pela dinâmica de competição por mercado", diz o presidente da filial brasileira da seguradora de crédito Coface, Fernando Blanco. "Se há 50 grandes bancos brigando, alguns se animam antes dos outros (a voltar a emprestar) e, com isso, acabam puxando o setor inteiro."

Blanco ressalta que o raciocínio é verdadeiro no caso de condições econômicas realmente melhores do que as anteriores. Em outras palavras, um banco pode enxergar antes do que outros que os efeitos da crise ficaram para trás e, a partir daí, ser mais agressivo na retomada das operações de crédito.

"Com mais cabeças pensando, cria-se maior diversificação nas decisões", diz o analista da Austin Rating, Luís Miguel Santacreu. "O Brasil enfrenta, a um só tempo, dois desafios. Um estrutural, que é a concentração bancária em si, e outro conjuntural, que é a crise de crédito global que nos pegou em cheio."

Essa realidade faz Santacreu elogiar as medidas anunciadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) no fim de março, cujo objetivo é aumentar a liquidez dos bancos menores. O CMN elevou para até R$ 20 milhões a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para aplicações em Recibos de Depósitos Bancários (RDBs).

Espera-se, com isso, que investidores voltem a comprar esse tipo de papel emitido por bancos menores, o que permitiria que voltassem a emprestar. "Esses bancos têm mais proximidade com o cliente e, por isso, têm mais agilidade", diz Santacreu. Como enfrentavam obstáculos para captar dinheiro no mercado em decorrência da falta de confiança dos investidores, não conseguiam retornar com força ao mercado.

Rodolfo Riechert, diretor do banco UBS Pactual, concorda. "Os bancos menores têm uma função social." Segundo ele, os pequenos e médios são as principais fontes de recursos para pequenas e médias empresas. Essas, por sua vez, empregam a maioria dos brasileiros.

O professor da USP Alberto Borges Matias não vê relação clara entre concentração bancária e retomada do crédito no pós-crise. Mas diz que é ruim o Brasil ter cada vez menos bancos relevantes. "Em primeiro lugar, porque dá a eles muito poder na definição de preços e tarifas. Em segundo, porque cria um risco para o próprio sistema financeiro, como ocorreu nos EUA com o Citi."

Fonte: O Estado de São Paulo / Leandro Modé