Aos poucos a oferta de crédito vai sendo restaurada e as linhas de empréstimos voltam às prateleiras dos bancos. Uma das que têm apresentado maior procura por parte das pessoas físicas é o crédito consignado, cujas parcelas são descontadas diretamente na folha de pagamento.

Segundo dados do Banco Central, em março as concessões mensais avançaram 24,1% em relação ao mês anterior. O volume mensal atingiu R$ 4,9 bilhões – entre as 13 maiores instituições que oferecem crédito pessoal – retomando patamar pré-crise.

Em abril, o governo deu mais um impulso à modalidade, com a volta do percentual de 30% para o comprometimento dos benefícios do INSS. Desde o início do ano passado, quando essa margem havia caído para 20%, com 10% destinado exclusivamente ao cartão de crédito consignado, o mercado havia reduzido drasticamente as operações. As concessões mensais que chegaram a superar um milhão de contratos num único mês, em 2007, caíram para menos de 20 mil novas operações em novembro de 2008.

Agora, com a volta do limite de 30%, os bancos estão retomando as atividades. Há procura nos bancos e muitas instituições voltaram a contratar pessoal dispensado na crise. "Voltamos a ter fila nas lojas", relata Paulo Henrique Pentagna Guimarães, presidente do Banco Bonsucesso.

Mario Ferreira Neto, superintendente nacional Caixa Econômica Federal afirma que a "procura aumentou demais" depois da mudança da margem para 30%. Dos 21,2 milhões de aposentados e pensionistas do INSS, cerca de 9,4 milhões (35,6%) têm empréstimos consignados, segundo dados do próprio instituto. São quase 15 milhões de operações em estoque, até novembro de 2008, último dado divulgado, que correspondem a um saldo total de mais de R$ 23 bilhões. Os cartões de crédito somam 2,9 milhões.

A expectativa agora é que seja retomada uma média mensal de novos contratos próxima de 500 mil operações por mês, mas com empréstimos de menor valor, disse Renato Oliva, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC). "O próprio aposentado está muito criterioso na tomada de empréstimo. Esperamos uma quantidade grande de operações, mas com valores menores".

A modalidade também é central nos bancos públicos. Tanto Banco do Brasil quanto Caixa Econômica Federal anunciaram reduções dos juros na quarta-feira, seguindo corte da Selic pelo Copom do Banco Central. O consignado estava entre as maiores reduções. Na Caixa, a queda foi de 31%, para 1,43% ao mês. No BB, o juro mínimo caiu para 1,36% ao mês. Segundo Mário Neto, da Caixa a demanda vem crescendo em todos os convênios de consignado deste o início do ano. "Esperamos um crescimento de 25% para a carteira de consignado em 2009", disse.

Outros dois fatores contribuem para a retomada da modalidade. Em primeiro lugar está a queda da Selic. Com os custos de captação em queda, o spread da operação volta a atrair os bancos. Além disso, a volta da procura do investidor por depósitos a prazo de bancos médios, que são as instituições fortes nesse segmento, trouxe recursos de volta a esse nicho de mercado.

Apesar da melhora no cenário, recompondo a margem dos bancos, hoje a oferta está mais restrita. Isso porque, devido à crise de liquidez do fim do ano passado, muitos bancos decidiram encerrar as operações de consignado, dado os custos elevados frente a uma margem mais estreita.

Segundo participantes do mercado, estima-se que antes da crise, havia quase 40 bancos nesse nicho. Hoje, há cerca de 10 operando de maneira efetiva. "Só vai ficar quem realmente sabe fazer consignado. O Bonsucesso investiu R$ 40 milhões nos últimos anos em tecnologia. Nós sabemos fazer", disse Pentagna Guimarães, presidente do banco.

Historicamente, o consignado é demandado no começo do ano para troca de dívidas assumidas com os gastos de fim de ano ou com as despesas típicas dos primeiros meses. Em 2009, no entanto, muitas linhas têm sido usadas para complemento de renda ou para gastos com consumo.

Pesquisa da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) aponta que 49% dos entrevistados disseram usar o consignado para pagar dívidas mais caras. Esse percentual era de 65% em setembro de 2006. Ao mesmo tempo, a parcela das pessoas que usou os recursos para reforma do imóvel, por exemplo, subiu de 8% para 13% e para compra de produtos passou de 9% para 21% no período.

Fonte: Valor Econômico / Fernando Travaglini