A funcionária do Santander e diretora do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Rita Berlofa, fez um pronunciamento de cinco minutos durante a assembléia geral de acionistas da instituição financeira ocorrida nesta sexta-feira, dia 19, na Espanha.

Em sua manifestação, a dirigente sindical relatou a dificuldade que os empregados enfrentam com a falta de funcionários nas agências, exigiu o fim das demissões, denunciou a precariedade das condições de trabalho, reivindicou o cancelamento do novo plano do HolandaPrevi e o respeito aos direitos dos aposentados do grupo, entre outras questões.

Rita Berlofa, além de diretora executiva do Sindicato é vice-presidente da Afubesp, e participou da assembléia na qualidade de acionista minoritária, juntamente com Mario Raia, também diretor do Sindicato e coordenador da Comissão de Organização dos Empregados (COE) do Santander.

Veja a íntegra do pronunciaomento

Bom dia a todos e a todas.

Dirijo minha saudação ao presidente mundial do Santander, Emílio Botin, e a todos os presentes. Meu nome é Rita Berlofa, trabalhadora do Grupo Santander Brasil há 24 anos.

Sou diretora executiva do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, filiado à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Integro o Comitê Executivo Mundial da UNI Sindicato Mundial e sou a atual Coordenadora do Comitê de Empresa do Santander na UNI América Finanças Sindicato Mundial.

Sou acionista do Santander porque, muito além do investimento financeiro pessoal, a estratégia sindical e dos trabalhadores é participar diretamente na gestão da empresa em que trabalham e nos fundos de previdência e saúde para os quais contribuem.

Somos de uma escola de novos dirigentes sindicais no Brasil que dirigem os principais fundos de previdência e saúde. Damos nossa opinião por entender que, como trabalhadores, também somos importantes protagonistas de uma empresa.

Estou aqui para fazer-lhes uma pergunta simples, mas muito esperançosa: estarão os acionistas do Santander satisfeitos com o desempenho do Santander no Brasil?

A análise dos resultados do último ano poderá acolher uma resposta positiva. Afinal, o Brasil representa 20% do resultado mundial do grupo.

Mas, falando francamente – como deve ser o diálogo entre acionistas e trabalhadores – nós, que empenhamos digna e exaustivamente nossa força de trabalho no Santander, NÃO estamos satisfeitos com os resultados!! E sem medo de errar, afirmamos que os resultados no Brasil podem e devem ser melhores e maiores.

A Espanha ensinou ao mundo a partir do Pacto de Moncloa, que o melhor negócio e a melhor negociação é aquela em que todos ganham. Queremos que os acionistas ganhem, que os trabalhadores ganhem e que o Brasil cresça com a presença do Santander.

Para entender nossa mensagem é preciso olhar com amplitude para a realidade brasileira e o seu sistema financeiro que é liderado por empresas estatais. Depois por dois grandes bancos de capital brasileiro, seguidos pelos bancos internacionais, sendo o Santander o mais importante.

Neste momento de crise financeira global, as instituições financeiras no Brasil apresentam bons desempenhos, resultado da política de governo do Presidente Lula. O crédito foi irrigado. Se investiu pesadamente em construção civil e infraestrutura. De fevereiro a maio houve um crescimento econômico da ordem de 2,2%. Deixando para trás a crise econômica mundial.

Dá para se imaginar como é acirrada a disputa pelos negócios e correntistas nesse sistema?

Até agora, os medidores do desempenho estão inflados pelos resultados das fusões que ocorreram nos últimos 10 anos.

Os públicos A,B e C já estão fidelizados e a disputa neste campo só permitirá ganhos com um novo ciclo de crescimento da riqueza.

Os programas sociais do governo têm gerado novos correntistas bancários. E será neste segmento – com acirrada concorrência entre as diversas empresas – que haverá crescimento orgânico do sistema financeiro, correntista a correntista, agência por agência. E, a nosso ver, o Santander está nessa disputa de forma equivocada, cujo resultado final poderá ser desastroso para todos, acionistas e trabalhadores.

Traçamos esse cenário principalmente, pela forma como a direção da empresa trata seu maior aliado, os seus próprios trabalhadores.

Está em prática uma política que ostenta um bonito nome de "meritocracia" – que de mérito nada tem – onde são utilizados meios truculentos de gestão com assédio moral e perseguição aos funcionários para cobrar uma produtividade desumana e cruel Será que é para os executivos terem seus bônus de meio milhão de euros, cada vez maior que sacrificam tanto os trabalhadores?

Queremos acreditar que não. Mas que existe uma injustiça muito grande na empresa, disso não temos dúvida. Um cenário cruel que provoca o adoecimento e a revolta de trabalhadores.

Os mesmos trabalhadores que em suas comunidades, em suas escolas e igrejas acabam revelando a enorme insatisfação em trabalhar para o Santander. Ora, como é possível manter um bom nível de produtividade, quando o principal artesão, o funcionário, está descontente com aquilo que faz?

Os aposentados do banco querem a preservação de seus direitos e benefícios e são discriminados nas agências onde é gritante a falta de funcionários, onde todos se desdobram para realizar apressadamente suas tarefas e sem tempo para dar o atendimento devido ao cliente, gerando grande insatisfação fazendo com que o Santander permaneça no "ranking" divulgado pelo Banco Central, das instituições financeiras mais reclamadas pelos serviços prestados aos clientes e usuários.

Assim, é cada vez mais concretizada na sociedade brasileira a imagem de um banco agressivo não só nos negócios, mas acima de tudo com os trabalhadores, a imagem de desrespeito, que não agrada a sociedade brasileira.

Entendemos que quem quer ser o maior, tem que ser o melhor, tanto do ponto de vista do trabalhador quanto do cliente. Queremos, exigimos, reivindicamos que todos os trabalhadores sejam igualmente recompensados por sua colaboração ao bom desempenho do Santander no Brasil.

Quando do inicio da incorporação do Banco Real (ABN Amro), em julho passado, buscamos negociações com as duas direções. Na oportunidade, pedimos a preservação de direitos, a adoção de planos de realocação de funcionários dos centros administrativos para a rede de vendas, assim como assinamos um acordo que antecipa aposentadorias dos mais antigos. Mesmo quando temos resultados nessas negociações, e não tememos em afirmar que são resultados positivos, seguiu-se uma onda de demissões.

Vejam, senhores e senhoras acionistas, quando trabalhávamos pela elevação da auto-estima de todos com os resultados positivos, alguns gestores iluminados fizeram a mágica de transformar o positivo em negativo com uma onda de milhares de demissões que provocou a redução de mais de 900 postos de trabalho, somente no 1º trimestre deste ano. Muitas destas demissões foram de trabalhadores próximos da aposentadoria. Outros tantos, de trabalhadores que retornavam da licença médica. Para que essa crueldade?

Recentemente, decisões previdenciárias e de saúde foram adotadas sem qualquer discussão com os trabalhadores e sindicatos. São condutas que nenhum valor agrega a um contingente de jovens trabalhadores bancários que hesitam em vestir a camisa da empresa.

Para finalizar, o Brasil de hoje deixou de ser um país do futuro, como foi chamado por lideranças mundiais, e se transformou num país do presente, ampliando conquistas na área do petróleo, do biocombustível, com crescimento econômico, com investimentos em infra-estrutura e políticas de combate à pobreza e a desigualdade social. Basta ver as pesquisas de avaliação do governo do presidente Lula.

Para o Santander se inserir nesse mercado, a mensagem que aqui deixamos é que o Santander precisa sentir, respirar e participar do crescimento da nossa sociedade. A grande maioria dos novos correntistas NÃO escolherá seu banco por que ele é um grande banco internacional e sim por ser um banco que de fato pratica a responsabilidade social, a partir do respeito aos direitos e empregos de seus funcionários.

Terá mais sucesso aquele que respeitar o Brasil e os brasileiros, a começar pelos seus próprios trabalhadores.

Muito obrigada

Fonte: Jair Rosa – Seeb São Paulo