O modo de organização do trabalho bancário se tornou uma das maiores fontes de problemas para a categoria. A pressão constante, o assédio moral e a sobrecarga de trabalho se tornaram rotinas no cotidiano dos funcionários dos bancos. Para discutir essas questões e os desafios da categoria para a promoção da qualidade de vida no ambiente de trabalho, a Rede de Comunicação dos bancários falou com Laerte Idal Sznelwar, médico do trabalho e professor do Departamento de Engenharia da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. A conversa se deu após a palestra proferidas pelo professor no 5º Encontro de Saúde e Condições de Trabalho, na sexta-feira, dentro da 11ª Conferência Nacional dos Bancários.

Rede de Comunicação dos Bancários – Frederick Taylor, considerado o pai da administração científica, afirmava que era preciso formar nas grandes fábricas um homem domesticado. Trabalhador do tipo bovino: o "homem-boi", forte e dócil. Você considera que hoje é o bancário que executa este modelo de trabalho na atualidade?

Laerte Idal Sznelvar – É difícil dar uma resposta a essa questão, mas vou colocar alguns elementos. Acredito que hoje em dia há coisas bem piores. Sobre o que você falou não deixa realmente de ser um desrespeito com o que é o sujeito humano. Você separar o que é o humano em vários "pedaços", dizer a eles que não precisam usar a inteligência, de ter iniciativa, vontades, enfim, é uma forma de relação de poder muito pesada, de como se busca a dominação com relação ao mundo do trabalho. Algo que é mais antigo do que andar pra frente, apesar de que não falávamos de trabalho, mas sim de escravidão.

Mas, o que eu acho pior, é que Taylor, pelo menos, por incrível que pareça esse paradoxo (risos), foi buscar junto aos próprios trabalhadores a fonte do seu conhecimento. O que é uma forma de expropriação como todos falam, mas, por outro lado, mostra certo respeito porque a fonte do conhecimento dele era o trabalhador. Então tem um paradoxo aí.

RCB – E quais são os fatores atualmente que se distanciam do que foi proposto na administração científica do trabalho?

Laerte – Atualmente se projeta as coisas e não se busca junto aos trabalhadores o que é a realidade. Isso eu acho que é muito grave porque às vezes se cria um mundo mais falso, achando que por ali vão se resolver os problemas. E há outros dois fatores: hoje em dia se usa e se busca a inteligência do trabalhador, e não só a inteligência, mas também o afeto. Você vê isso em várias formas de gestão, mas não como espaço para que as pessoas existam como sujeitos, e sim para instrumentalizar isso como fonte de produtividade e qualidade segundo alguns critérios restritivos. Então, por alguns motivos, acho que hoje em dia é ainda pior. Por isso, temos que tomar muito cuidado de como enxergamos a possibilidade de emancipação das pessoas e não de instrumentalização delas.

RCB – Os gestores têm consciência de que muitas vezes estão promovendo o assédio moral por essa via da instrumentalização?

Laerte – Não. Não acredito que o façam conscientemente. Evidentemente que se vai sempre encontrar em qualquer sociedade, nas empresas que são parte da sociedade, porque são organismos sociais, vão se encontrar alguns estrategistas que pensam de maneira mais maniqueísta, que pensem nessa manipulação dos outros.

Acho que as pessoas, para exercer um papel desses, se elas ainda guardam um pouco de consciência moral, não têm isso de forma clara. Tem isso meio turvo. Dizem: bom, não tem outro jeito, essa é a melhor maneira para se fazer, não dará certo de outra forma. Então tem uma discussão de se tornar essas coisas banais e reduzir o nível de consciência em relação ao problema. Tem um livro do Dejours (Christopher Dejours, psicanalista francês), de difícil leitura, mas muito importante, que se chama A Banalização da Injustiça Social. Segundo o Dejours, isso acaba sendo transformado em algo bom, que é o normal, "então eu faço o que é normal. Não estou fazendo nada de mal".

Esse livro do Dejours vem na linhagem de um trabalho que começou (não teve origem aí), mas que foi fortemente evidenciado pela Hannah Arendt (teórica política alemã), quando ela discutia a banalidade do mal a propósito dos dirigentes nazistas, mais especificamente do Eichmann (um dos responsáveis pelo processo de execução de milhões de judeus nos campos de concentração nazistas). Claro que ele sabia o que estava fazendo, mas ele se dizia um cumpridor de tarefas, que era uma pequena parte daquele sistema monstruoso feito exclusivamente para matar. Mas, como sou apenas uma peça dessa engrenagem, não me dou conta do resto, dizia.

Então, isso é uma coisa muito importante, inclusive na questão da psicodinâmica, da ação do individuo no mundo, é uma ação que não pode ser restrita. Como dizem: "não, o que estou fazendo é o que há de melhor, sou muito bom nisso, sou excelente no zelo pra matar as pessoas", que é o que os nazistas faziam.

RCB – Você diz que as coisas podem ser feitas de outras formas…

Laerte – Evidentemente que não estou dizendo que as pessoas que trabalham nas empresas são nazistas, pelo amor de Deus. Mas o risco é banalizar. Como não tem outra saída? "Ah! Se não fizer assim, a empresa vai falir, o país vai pra bancarrota". Isso não é verdade. Felizmente na humanidade tem muitas maneiras de se fazer. Talvez isso seja uma herança do taylorismo que dizia: só tem um jeito de se fazer.

Isso é uma bobagem, temos que olhar o mundo com olhares da complexidade. Observar que as coisas não são definitivas. Não conseguíamos enxergar, como o que acontece agora, a bancarrota econômica de um modelo que se dizia ser "o" modelo. Qualquer modelo é uma redução da realidade e deve ser visto assim.

RCB – Muitos gestores bancários dizem aos seus subordinados que precisam tirar a venda dos olhos para trabalhar e que por isso enxergam as coisas enviesadas. Como trazer à tona essas questões que você levanta?

Laerte – Todo olhar é enviesado, acho que isso é fundamental. Eu só vou respeitar a existência do sujeito se de fato você vai falar para mim o que você viveu, com teu viés, se você sofreu isso ou aquilo. Não pode dizer com meu olhar, nem com o desses dirigentes. O problema é saber, ao conversar com uma pessoa dessas, o quanto está sendo colocado aquele manto, véu defensivo de quem não quer entrar no debate, então joga o problema para o outro. Essa é uma abordagem que usamos bastante na psicodinâmica do trabalho, para que as pessoas coloquem seus próprios pontos de vista. Inclusive, porque o seu olhar é só parte. Isso é interessante, porque eu olho e não me enxergo. Consigo ver só uma parte, mas não estou olhando a minha cara. No final das contas, eu me enxergo olhando de mim para o mundo. Evidentemente que o mundo me trouxe uma série de informações que eu trabalhei e vivi de alguma maneira.

Agora é bem capaz de que o discurso dessas pessoas seja defensivo. Jogo a bomba para você para que eu mesmo não tenha que pensar. "Eu, como dirigente de banco, não posso pensar isso, porque o que estou fazendo de fato é muito bom."

RCB – As consequências disso…

Laerte – O problema, para essas pessoas que carregam esse discurso defensivo, é que pode ser que um dia elas voltem a si sem perceber. Ao não refletir, não pensar sobre as próprias ações, um dia se pode cair do mundo e se dar conta do que está fazendo, de que sendo feita uma grande besteira, de não ter escutado há um tempo atrás um "trabalhadorzinho" da base que tinha uma vivência que podia trazer alguma coisa. Então, também tem certa humildade para saber escutar o que o outro tem a dizer. Isto não significa que um tenha a verdade e outro esteja mentindo, são pontos de vista.

RCB – Quais os recursos para que os jovens que ingressam nos bancos não sejam facilmente manipulados pelas empresas?

Laerte – Pensando no jovem, acho que ele não é tão facilmente manipulável. Manipulável é a própria ambição. Vejo isso com meus alunos que vão trabalhar nos bancos, nas mesas de operação, porque se acha que vai ganhar uma grana rápido, e aquilo acaba passando, como se tomou uma chuva, secou e foi embora. Isso deixa alguma coisa em você. No final das contas, a manipulação estaria aí.

Bom, você vai ter trabalho, salário, mas o importante é ressaltar que ser bancário não é ruim. É uma profissão excelente, o problema é como o trabalho está organizado. Muita gente foi bancário a vida toda e se deu muito bem. O problema é quando você começa a viver cada vez mais essas maneiras de organizar o trabalho que são extremamente nefastas. Claro que também não dá para generalizar que este mesmo modelo acontece em todos os bancos porque não conheço a fundo. Haverá situações melhores ou piores. O grande risco é que a maneira de como o trabalho é organizado deixa espaços para essas pessoas, que às vezes, mesmo inconscientemente, infligem o mal para o outro, sem que a própria estrutura da organização se dê conta que aquele cara no fim das contas está fazendo mais mal do que ajudando o próprio banco. Vejo os trabalhadores dizendo entre si: "ah, aquele gerente é um ‘nazistão’". Bom, se ele é, é porque alguém deixa.

RCB – O que precisa ser feito?

Laerte – Tem que discutir essa estrutura tanto com o jovem, o menos jovem e o mais idoso, que é recuperar a possibilidade de dizer. O jovem chega cheio de sonhos também. Então, não pode matar esse desejo, tem que mantê-lo vivo, e não é simplesmente material. E aos poucos se dão conta rapidamente de que se existem outros desejos, que é de trabalhar bem, fazer as coisas bem feitas, e acaba muitas vezes sobrepujando a vontade de ter ganhos apenas materiais. Nada contra, mas não basta. Então é não perder os sonhos, mas os sonhos verdadeiros, os desejos que são de fato, de ser alguém, inclusive através do trabalho, mas não apenas no sentido material do tempo.

Fnte: Júnior Barreto/Rede de Comunicação dos Bancários