A venda de ações do Banco Santander Brasil que o grupo espanhol pretende fazer vai envolver 15% do capital e serão papéis novos. Os esclarecimentos foram prestados pelo presidente executivo do banco espanhol, Alfredo Saenz, durante a apresentação para analistas dos resultados do grupo no primeiro semestre, realizada ontem. "Está previsto colocar 15% e serão ações novas", limitou-se a dizer Saenz nas duas vezes em que foi diretamente questionado a respeito do assunto.

O plano do Santander de vender ações no mercado brasileiro, divulgado em primeira mão pelo Valor, tornou as operações no país alvo de tantas perguntas dos analistas quanto as relacionadas aos negócios na própria Espanha e mais curiosidade do que desperta o banco no Reino Unido.

Um dos motivos é o valor da operação. No fim de junho, o capital social do Banco Santander Brasil era de R$ 47,2 bilhões. O patrimônio era de R$ 49,382 bilhões na mesma data, ou R$ 25,13 bilhões se for excluído o ágio. Se Saenz usou como referência o capital social, os 15% em novas ações equivalerão a cerca de R$ 7 bilhões. Se ele excluiu o ágio, a emissão ficará ao redor de R$ 4 bilhões.

Volume tão grandioso criou entre os analistas a preocupação de que o banco estaria se prevenindo para o aumento da inadimplência no Brasil. Afinal, foi isso que aconteceu em outros mercados como a Espanha e o Reino Unido. Mas Saenz procurou acalmar os analistas.

Nas várias vezes que foi perguntado sobre o assunto, disse que a inadimplência aumentou no primeiro trimestre, em alguns setores econômicos, no Brasil, mas não era "uma preocupação fundamental". Informou também que as provisões aumentaram em "30% a 40%" por causa da expansão do crédito, na casa de "dois dígitos"; e que a economia brasileira indicava "números positivos de crescimento".

O presidente do Banco Santander Brasil, Fábio Barbosa, não quis falar a respeito da venda de ações. "Estamos estudando o assunto. Não há nada a comentar", disse. Mas informou que o banco já está tomando providências societárias preparatórias para "uma eventual operação no mercado de capitais".

Nesta semana, o banco colocou debaixo do banco outras unidades para dar um melhor ordenamento societário ao grupo. Em reunião realizada terça-feira, a diretoria da Santander Seguros, do Banco Comercial e de Investimentos Sudameris (BCIS) e da Santander Brasil Asset aprovaram proposta de incorporação dessas unidades ao banco, que será submetida a assembleia de acionistas, em 14 de agosto. Também foi decidida incorporação ao banco da ABN Amro Administradora de cartões de Crédito. Haverá ainda a cisão da Santander Investimentos e Participações, com versão do seu patrimônio ao banco e à Santander Advisory Services.

Finalmente, houve a reorganização na área de seguros que compreende a incorporação da Real Seguros Vida e Previdência e da AAB Dois Par pela Santander Seguros, o que depende ainda da aprovação dos acionistas e da Susep.

Outro motivo importante para o forte interesse dos analistas internacionais do Santander pelo Brasil é a participação crescente do país nos resultados globais do grupo. De acordo com informações divulgadas ontem na Espanha, o Brasil, com ? 961 milhões, contribuiu com 18% do lucro global do banco, mais do que os 16% do resto da América Latina e os 16% do Reino Unido. A compra do ABN Amro, concretizada em 2008, ampliou os números.

Em reais, o balanço é complexo. Segundo o grupo, o Santander Brasil registrou lucro líquido recorrente de R$ 1,874 bilhão no primeiro semestre, com crescimento de 13,5% em comparação com R$ 1,651 bilhão em igual período de 2008, já incluídos os dados do ABN para comparação. Considerando os eventos extraordinários (venda de participações como a VisaNet e amortização de ágio), o lucro líquido foi de R$ 1,058 bilhão, uma queda de 44,1% em relação aos R$ 1,892 bilhão em 2008.

Os recursos apurados com a venda da participação na VisaNet – que deram um ganho líquido de R$ 1,139 bilhão no balanço consolidado – foram destinados ao reforço das provisões para devedores duvidosos, disse Barbosa.

A carteira de crédito do Santander cresceu 15%, de R$ 119,5 bilhões no fim do primeiro semestre de 2008 para R$ 137,3 bilhões no fim de junho passado, sustentando os resultados, disse o presidente do banco. Ele espera que a carteira de crédito feche o ano com expansão de 10% a 15%.

A inadimplência, informou, cresceu "mas está estabilizada e não deve continuar a subir" em vista dos sinais de melhoria econômica, evidenciados a partir de maio. O total de crédito classificado de E a H, que inclui atrasos acima de 90 dias, subiu de 5,4% para 6,9% da carteira. Por isso, as despesas com provisões para crédito aumentaram 57,9%, de R$ 3,1 bilhões para R$ 4,9 bilhões, passando de 4,5% para 6% da carteira total.

Segundo Barbosa, a integração do Santander e ABN Amro está no ritmo previsto. A unificação das redes deve ser no terceiro trimestre de 2010. Até o fim deste ano, a administração mudará para novo prédio, na zona sul. Saenz disse que os ganhos de sinergia no primeiro ano de operação conjunta foram de R$ 1,3 bilhão, superando os R$ 800 milhões previstos.

Fonte: Valor Econômico / Maria Christina Carvalho, de São Paulo