Os bancos que atuam no Brasil precisam operar com mais transparência e se aproximar da sociedade. Não, esta frase não foi dita por nenhum dirigente do Sindicato. A opinião é do próprio presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Fábio Barbosa, em entrevista publicada na terça-feira, dia 11, pelo jornal Valor Econômico.

Barbosa admitiu que o setor financeiro sempre trabalhou de forma fechada, sob regulação exclusiva do Banco Central. "Assim funcionou por muito tempo, levando o sistema a ser muito pouco conhecido. Era um relacionamento apenas com o BC. Agora a população está mais informada e tudo acontece com a luz acesa. Acenderam a luz. O fato é que temos de dar maior visibilidade para o que fazemos. O setor está vendo que tem de dialogar mais não só com o BC, mas com os Procons, com o Ministério Público, com o Judiciário, a imprensa. E temos de fazer também uma autorregulação. Os bancos devem entender que têm um papel na sociedade e ter certeza de que está desempenhando esse papel", disse o executivo.

Embora admita que falta transparência dos bancos, o presidente da Febraban acredita que as próprias instituições financeiras se autorregularão. Apesar de o mercado bancário ser altamente concentrado no Brasil, Barbosa diz que "a concorrência é ferrenha".

"Hoje no Brasil são seis a sete bancos de varejo competindo, sendo dois estatais, e acho que a concorrência está cada vez mais acirrada. Isso (oligopólio) não existe. Quem promove a concorrência é o consumidor. Cabe a ele buscar a alternativa mais barata e fazer com que os preços baixem", diz.

Preconceito

Após décadas e décadas recebendo apoio total de todos os governos brasileiros, os bancos, pela primeira vez, encontraram um relacionamento que não é tão amistoso com a administração de Lula. Nos últimos anos, os bancos tiveram vários embates com o Planalto e perderam.

Já não têm mais liberdade para traçar suas próprias políticas tarifárias sem prévia autorização do BC, perderam cerca de R$ 250 milhões que recebiam do INSS para administrar a folha de benefícios e, logo após a crise financeira global, foram bombardeados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para reduzirem os elevadíssimos spreads.

Barbosa usa a política de bancarização do governo federal como desculpa para os spreads. "A inadimplência é muito grave. Estudos mais recentes mostram que ela já corresponde a 50% do spread. Vamos ver que país a gente quer. Podemos ter um país onde o crédito é restrito a poucas empresas, o prazo é curto e teremos dois grandes benefícios: spreads baixíssimos, porque as empresas são de altíssimo nível; e inadimplência próxima a zero. Ou ter a bancarização. Na medida em que você avança e vai incorporando novos clientes, a qualidade do crédito vai piorando. Isso vai representar risco alto e, portanto, teremos spreads maiores. Falei para o governo que quanto mais bancarizarmos o país, de certa maneira maior será o spread", afirmou Barbosa.

O presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Luiz Cláudio Marcolino, discorda e ressalta que muitas vezes ter uma ficha limpa no Serasa é o único bem das pessoas. "O Banco do Nordeste, por exemplo, é o maior operador de microcrédito no país e o índice de inadimplência tem ficado abaixo de 1% nos últimos anos. Enquanto isso, a inadimplência das empresas e dos consumidores brasileiros chegou a 5,7% das operações de crédito em junho. Ou seja, não é a inclusão dos mais pobres no sistema financeiro que vai aumentar o calote e os spreads. Isso é preconceito", diz.

Marcolino destaca ainda que há seis anos o Conselho Monetário Nacional (CMN) estabeleceu que os bancos aplicassem 2% de seus depósitos à vista nas operações de microcrédito. "Como a cobrança de juros é estipulada em 2% ao mês para pessoa física, a norma é simplesmente ignorada e apenas a metade do valor previsto é aplicado. As instituições financeiras preferem depositar o dinheiro, sem remuneração no Banco Central, a destinar recursos aos mais pobres. E depois os bancos ainda têm coragem de falar em responsabilidade social", finaliza.

Fonte: Seeb São Paulo com Valor Econômico