Os bancos de médio porte já estão em posição confortável em relação à liquidez. Tão confortável que começaram a travar uma queda de braço com os investidores. A disputa gira em torno das taxas pagas pelo chamado depósito a prazo com garantia especial (DPGE), novo instrumento de captação criado durante a crise e que conta com a cobertura de até R$ 20 milhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

É justamente essa cobertura, na visão dos bancos médios, que deveria trazer os juros mais próximos do CDI. Ao contrário da expectativa dessas instituições, no entanto, o custo tem ficado bem acima, na casa dos 115% do CDI, em média. Somado a isso, há ainda uma taxa de seguro, cobrada pelo FGC, de 1% ao ano, que com a Selic de hoje, em 8,75%, eleva o custo em mais 12% do CDI.

Essa combinação de liquidez restabelecida e custo alto fez com que as emissões de DPGE desacelerassem nas últimas semanas, chegando a R$ 10 bilhões, bastante longe da expectativa inicial que girava entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões. "A queda de braço continua. Os investidores ainda estão querendo levar vantagem em tudo. Querem segurança com preço de rentabilidade. A rentabilidade está no CDB", disse Renato Oliva, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC).

Segundo Aniz Chacur Neto, vice-presidente do ABC Brasil, a criação do DPGE foi uma medida muito saudável do BC porque trouxe de volta a confiança do investidor. Mas o custo está salgado. O ABC tem limite para emitir R$ 2 bilhões em DPGE, mas não fez nenhuma operação.

De fato, segundo dados do FGC, cerca de 60 instituições já utilizaram o novo instrumento, mas as captações representam menos de 20% do limite que poderia ser atingido por elas.

O ABC está emitindo CDB pagando de 103% a 104% do CDI, conta o executivo. "Se fosse emitir um DPGE, o custo passaria a 110% do CDI. Hoje o CDI está em 8,6%, com o seguro de 1% vai a 11,6% Para ficar competitivo com o CDB, teria que pagar apenas 91,5% do CDI. Mas é bom que exista porque tranquiliza o mercado".

O presidente do Bonsucesso, Paulo Henrique Pentagna Guimarães, não esperava esse desempenho com cenário com o qual fechou o balanço de 2008. Na realidade, o primeiro trimestre deste ano ainda não foi bom. O cenário só começou a mudar a partir daí, quando foi criado o DPGE, em abril, que normalizou as condições de liquidez para os médios – o aumento da margem consignável de 20% para 30% nas operações com beneficiários do INSS também contribuiu positivamente.

Somente em DPGE o Bonsucesso emitiu R$ 430 milhões até a semana passada. "Mas o custo é muito caro, dado que é supergarantido, quase um risco soberano. Estimava-se inicialmente que poderiam ser emitidos até R$ 50 bilhões. Não vai crescer tanto assim por causa do custo. Ao pagar o seguro de 1% o custo sobe a 112% 115% do CDI".

Os bancos estão tentando sensibilizar o BC e o próprio FGC, disse Pentagna Guimarães. "O custo foi fixado em 1% quando a Selic era mais alta do que hoje. Hoje está em 8,75%. Não faz sentido. Qualquer seguradora cobraria menos. O custo do DPGE deveria ser a metade, 0,5% a 0,3% a 0,4% a partir de agora. Isso também baratearia custo do dinheiro para pequena e média empresa".

O diretor-executivo do FGC, Antonio Carlos Bueno de Camargo Silva, diz que o custo é adequado para a atual realidade. "Sempre haverá reivindicação de quem paga uma taxa, mas o patamar hoje é adequado". Segundo ele, a redução das emissões de DPGE se deve à normalização da liquidez nos bancos médios. "Ninguém está precisando fazer captação". A tendência, segundo ele, é que o estoque feche o ano próximo de R$ 15 bilhões, com o crescimento das operações de crédito no segundo semestre.

Milto Bardini, vice-presidente do BicBanco, afirma que a menor pressão de liquidez contribuiu para reduzir os custos de captação. O banco está pagando o equivalente a 104% do CDI. Mas não descarta a emissão do depósito a prazo com garantia especial (DPGE), que tem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), quando a demanda por crédito aumentar. Apesar do custo salgado, o DPGE pode ser competitivo em comparação com as captações internacionais, disse.

Mesmo com a normalidade, Oliva, da ABBC, diz que a entidade discute com o Banco Central e com outras entidades a criação de novas estruturas de captação para os bancos. As principais propostas seriam a criação de um recibo de depósito bancário (RDB) que pudesse ser negociado em mercado secundário e de um certificado de depósito bancário (CDB) que tivesse uma garantia vinculada em títulos de crédito concedidos pelos bancos (CCB). A ABBC estuda ainda uma espécie de debêntures financeira, semelhante aos bônus emitidos pelos bancos no exterior.

Fonte: Valor Econômico