BASILEIA – Quem poderia imaginar que o sistema financeiro desmoronaria? É com esta indagação atônita que o Banco de Compensações Internacionais (BIS) inicia seu relatório anual de 260 páginas, divulgado hoje. Num evidente sinal de impotência, o banco dos bancos centrais, que acolhe autoridades monetárias e reguladores, constata que o sistema é tão "complexo ao ponto de ninguém talvez ser capaz de compreendê-lo na sua totalidade".

Para o BIS, a "prioridade-chave" é reformar o sistema financeiro internacional até porque, enquanto isso não ocorrer, julga que qualquer melhora na economia real será temporária. O BIS adverte também que, enquanto os grandes bancos internacionais se mostrarem reticentes a financiar a atividade no mundo emergente – principal motor da expansão econômica mundial na última década -, as perspectivas de crescimento e desenvolvimento estarão comprometidas.

As previsões discutidas por banqueiros centrais de todas as partes do mundo, reunidos em Basileia, apontam para um crescimento global ao final deste ano. Mas uma normalização, ou seja, o fim da crise, parece ainda distante. Segundo o presidente do BC brasileiro, Henrique Meirelles, constatou-se que a deterioração econômica nos EUA e na Europa diminui, e que o Brasil está entre os países mostrando capacidade de sair mais forte da crise.

Em seu relatório, o BIS enumera cinco etapas da crise para concluir que o sistema financeiro tem hoje tantas interconexões criando riscos sistêmicos que são difíceis de destravar. O sistema funcionou até então porque, no meio da falsa impressão de comodidade generalizada, muita gente se enriquecia.

Agora, o BIS considera que um ajuste econômico é precondição para uma recuperação sustentável. Isso passa pela contração do setor financeiro, que cresceu demais e acumulou ativos de qualidade duvidosa. Os bancos devem reativar os créditos, mas também decidir ser menores, menos complexos e mais prudentes. Precisam encontrar novos modelos de negócios, para reconhecer a necessidade de elevar o valor e a qualidade das reservas de capital e liquidez.

O ajuste passa pela necessidade de eliminação do excesso global de capacidades em setores que recorreram fortemente ao crédito, como o automotivo e de construção. Considera indispensável ajustes nas estruturas de producao de modelos baseados em crescimento puxado pelo endividamento nos países ricos, ou concentrados excessivamente em exportações, como em economias emergentes.

No caminho da "nova normalidade" , o banco prevê a criação de mecanismos para avaliar a adequação e os riscos dos novos instrumentos financeiros e a centralização de compensação, liquidação e até negociação deles. O setor financeiro deverá se habituar a um crescimento mais lento, menos lucros, mas também menor volatilidade do que no passado.

O BIS reclama, porém, que os planos de socorro, que foram indispensáveis, estão na verdade travando a reforma do sistema financeiro global em vez de facilitá-la. Ajudando os bancos a se recapitalizar, as autoridades tiraram dos dirigentes as decisões para reduzir o tamanho dos balanços e do nível de risco (realocação de ativos). E ao favorecer a compra por outros bancos de instituições em dificuldade, uma opção clássica, os governos ajudaram o surgimento de grupos financeiros "tão grandes e tão complexos que mesmo sua diretoria não é capaz de apreender a exposição ao risco".

Já no Brasil, segundo Meirelles, medidas como garantias dos depósitos dos pequenos bancos e o fundo de aval para empresas ajudam justamente a evitar a concentração e a estimular a concorrência bancária.

O BIS prevê que o custo do crédito deverá continuar sua tendência a alta. Os calotes vão aumentar, também no pagamento de cartas de crédito nos EUA. Alerta ainda para uma freada na internacionalização da atividade bancária, com certos bancos dando "preferência nacional" nos empréstimos. Os bancos americanos e alemães são os que mais se desengajaram da atividade internacional, reduzindo fortemente suas exposições nas economias emergentes.

Com relação aos emergentes, o relatório do BIS constata que eles conseguiram resistir até serem afetados, no fim do ano passado, por dois desdobramentos da economia real: a erosão da demanda de bens de consumo durável nos países industrializados e a queda no valor das commodities, que representam 40% das exportações da América Latina.

O recuo sem precedente das exportações coincidiu com a queda dos créditos bancários e dos investimentos. No primeiro trimestre deste ano, a queda sincronizada das exportações foi de 25% de um ano para o outro, chegando a 40% no caso da Rússia e do Chile. A experiência demonstra que, para ocorrer uma recuperação econômica vigorosa globalmente, será necessária uma expansão do comércio.

Só que a situação financeira precária das famílias tem efeitos negativos sobre o consumo. Entre o segundo trimestre de 2007 e o final de 2008, o valor líquido do patrimônio das famílias americanas desabou 20%, ou cerca de US$ 13 trilhões. É uma perda superior à riqueza acumulada nos cinco anos precedentes. Para o BIS, os emergentes, sobretudo na Ásia, precisam rever seu modelo e reduzir a excessiva dependência das exportações.

Fonte: Valor Online