Depois de comprar várias instituições financeiras no país no último ano, com negócios que ultrapassaram R$ 10 bilhões, o Banco do Brasil (BB) avalia repetir a dose no exterior, algo inédito para a estatal federal. O movimento faz parte da estratégia de internacionalização do banco e deverá ter como foco sobretudo oportunidades nas Américas – com destaque para o Cone Sul e os Estados Unidos -, onde estão os melhores mercados potenciais, com muitas empresas brasileiras atuando e pechinchas à venda.

– Se não crescer no exterior, em dez anos o BB será menor do que é hoje – afirmou ao GLOBO o vice-presidente de Negócios Internacionais e Atacado da instituição, Allan Simões Toledo, lembrando que, atualmente, praticamente não existem mais oportunidades de aquisições no próprio Brasil.

As compras lá fora entraram na pauta do BB pela primeira vez após a crise internacional, que, além de ter fortalecido as operações do banco no exterior, reduziu significativamente os preços dos ativos de muitas instituições pelo mundo.

Os principais atingidos foram os EUA – epicentro da crise e mercado onde o BB já decidiu abrir um banco de varejo completo, algo que pode sair do papel até o fim do ano.

Falta apenas o sinal verde do banco central americano, o Federal Reserve (Fed).

Nos EUA, valor de mercado dos bancos caiu 8%

Além da abertura de agências em áreas bastante habitadas por brasileiros, como Nova York, o BB agora avalia a aquisição de pequenos bancos e financeiras que atuam naquela região. Com a crise e a quebra de importantes bancos nos EUA, os preços caíram muito.

Além disso, a favor do BB está o câmbio valorizado, que deixa os ativos lá fora mais baratos ainda, já que menos reais compram uma mesma quantidade de dólares.

Levantamento da Economática mostra que, desde 15 de setembro do ano passado – início da fase mais aguda da crise internacional – até agora, o valor médio de mercado de 183 empresas financeiras listadas na Bolsa de Nova York recuou quase 8%, para aproximadamente US$ 1,9 trilhão.

A investida do banco no exterior já havia sido sugerida recentemente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que quer ver a instituição se tornar uma importante multinacional, como a Petrobras. A determinação ficou ainda mais evidente porque, em junho passado, o BB recuperou a liderança no mercado bancário brasileiro, com ativos de R$ 598,812 bilhões, deixando para trás o recém unido Itaú Unibanco.

Para o governo, é imprescindível manter a estatal no topo para continuar sendo um indutor no mercado de crédito nacional, sobretudo para puxar reduções de juros. A lógica também se aplica ao financiamento do setor produtivo brasileiro no exterior.

Toledo conta que, no auge da crise internacional, muitas multinacionais brasileiras acabaram migrando suas contas para o banco, que, por ser estatal, tem uma avaliação de risco melhor. Elas acabaram ficando.

Os depósitos que o BB tinha nos EUA, por exemplo, saltaram de US$ 400 milhões para US$ 4 bilhões do fim de 2008 para cá, graças sobretudo às grandes corporações: – Queremos estar perto dessas companhias brasileiras que atuam lá fora. Essa é uma oportunidade única de negócios.

BB também quer crescer na Ásia e na África

Outras chances de compra que estão sendo estudadas pelo BB estão na América do Sul, sobretudo na Argentina, no Chile e no Paraguai, pelas mesmas razões. O Paraguai, destacou o vice-presidente, abriga a segunda maior colônia de brasileiros no mundo, com 400 mil pessoas. Perde só para os EUA, com 1,4 milhão. Já existem planos de aumentar de duas para 15 agências do BB no país vizinho em dois anos.

Na Argentina, a atração são as muitas empresas brasileiras que têm negócios lá, potenciais clientes. A expansão da estatal também passa pela Ásia, onde já há a decisão de abrir uma BB Securities em 2010, voltada para investimentos no mercado financeiro. Também há interesse na África, sobretudo nos países de língua portuguesa, como Angola.

Os planos mostram que o Brasil ficou pequeno para a instituição.

Ainda mais após a expansão dos últimos anos. Em menos de 12 meses, o BB fez cinco importantes aquisições no mercado doméstico, que envolveram R$ 11 bilhões. Foram três compras de instituições – Nossa Caixa e os bancos estaduais de Santa Catarina (Besc) e do Piauí (BEP) – e uma parceira privada, a aquisição de 50% do Banco Votorantim. Ainda assumiu 100% do controle da seguradora Aliança do Brasil.

Esse foi um dos segredos para retomar o topo do ranking.

Mas daqui para frente já não há grandes oportunidades de aquisições. O BB ainda negocia a compra do Banco de Brasília (BRB), mas a disputa por preços já invadiu a esfera política. O BB já desistiu de comprar o Banco do Espírito Santo (Banestes), também por falta de consenso no preço.

Fonte: O Globo / Patrícia Duarte