A indústria brasileira pode ter exagerado ao cortar mais de 580 mil postos de trabalho de novembro a março, prevendo um cenário que acabou não se concretizando. A produção aumentou todos os meses do primeiro semestre deste ano, mas as vagas fechadas no primeiro trimestre ainda não foram reocupadas.

Segundo dados do IBGE e do Ministério do Trabalho, o semestre terminou com 63 mil empregos a menos que em dezembro (queda de 0,64%), enquanto a produção das empresas subiu 16% no mesmo período.

Especialistas ouvidos pelo UOL consideram que os empresários do setor podem ter demitido mais que o necessário no final do ano passado e início de 2009, sobretudo no segmento automobilístico. Mas ressalvam que, naquele momento de forte crise internacional, seria muito difícil prever que a recuperação ocorreria tão cedo, ainda que em ritmo lento.

"Se você está andando de carro e de repente enfrenta um nevoeiro, você enfia o pé no breque. Isso é do ser humano: diante da insegurança, a preservação", diz o economista Paulo Francini, diretor da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

"Os empresários demitiram além da conta porque tinham a ideia de que a crise seria mais grave. Mas não podemos castigá-los", avalia o professor de economia Julio Gomes de Almeida, da Unicamp. "Houve um exagero também no corte do crédito. Errar, numa situação dessa, não é um demérito", acrescenta.

A indústria fechou postos de trabalho nos três primeiros meses de 2009, mesmo com a produção em leve alta, e passou a abrir vagas a partir do quarto.

Almeida considera que a geração de empregos no setor desde abril ocorreu não apenas porque a atividade industrial passou a crescer, mas também porque as demissões no final de 2008 e início de 2009 foram "exageradas". Ele acredita que esse processo de correção ainda está em curso, o que significa que a indústria deve continuar contratando nos próximos meses.

Francini, da Fiesp, considera que o emprego na indústria caiu em todos os meses do ano até julho, e prevê que agosto será o primeiro mês em que as contratações vão superar as demissões.

Ele lembra que os cortadores de cana são formalmente considerados trabalhadores da indústria, uma vez que são empregados das usinas. Sem contar esse segmento, em que sempre há demissões no fim do ano e contratações no começo, a indústria paulista demitiu mais do que contratou em todos os meses de 2009, segundo dados da Fiesp.

Fonte: UOL / Sílvio Guedes Crespo