terça-feira, setembro 18, 2018
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Somos bancários e não banqueiros!

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Alguns amigos me diziam que somos todos loucos, outros que somos bestas ou aluados. Bom, eu acho que somos de tudo um pouco! E por que digo logo isto? Por que começo escrevendo dizendo isto? Porque comecei a desenhar esta peça enquanto dirigia.

Isso, eu tenho o costume de escrever na mente enquanto dirijo. Principalmente se o percurso for longo. Lembro-me que passei quase cinco anos indo e vindo no trajeto João Pessoa – Recife, todos os dias. Era Gerente da Caixa em Recife e morava em João Pessoa, onde também cursava Direito. Quando fui transferido – não pude recusar um convite da Direção da Caixa para assumir um importante cargo regional, eu estava cursando o 2º período de Direito, significando que os outros oito períodos eu tirei na estrada. Olha, apesar do cansaço e do “stress” de dirigir todos os dias, numa tensão enorme e de ter engordado uns 15 quilos pelo sedentarismo imposto, digo que valeu a pena, foram os anos profissionais mais felizes da minha carreira, até então.
Mas uma coisa me motivou muito a voltar para João Pessoa foi o fato de ter testemunhado de perto a violência gratuita que impera naquela Metrópole. Perdi amigos e um irmão, em assaltos bobos, onde sempre a vítima não reagia, mas a insanidade e a crueldade dos bandidos não estavam nem aí para a postura da vítima. Matam como quem dá um cascudo em menino!
E como eu adotei João Pessoa como a “minha cidade”, preferi voltar. Voltei para a minha cidade tranqüila, para o bom convívio familiar e cuidar dos meus filhos.
Mas será que essa tranqüilidade está chegando ao fim? Esta é uma pergunta que todos estão se fazendo ultimamente.
E não venham me dizer que é culpa da economia, das diferenças sociais, da falta de oportunidade. Isso sempre existiu e existirá, enquanto o modelo econômico for assim. Algumas coisas foram feitas para perdemos essa tranqüilidade. E precisamos descobri-las.
Será que é porque estamos votando nas pessoas erradas para governar a Cidade, o Estado, o País? Isso também devemos nos perguntar. Pois estamos de mal a pior.
Podemos perceber que em João Pessoa ainda não temos o crime gratuito, como ocorre em Recife. Aqui ainda não nos deparamos com crimes como o que vitimou meu irmão, que, por exemplo, estava sentado na calçada da beira mar e foi abordado por elementos armados que o deslocaram para um lugar a esmo para roubá-lo em cinqüenta reais. Diante do pedido dele para o bandido, “leve o que tenho e, por favor, não me faça nada”, a resposta foi um tiro fatal sem nenhum propósito, sem nenhum motivo ou piedade.
O que está acontecendo em nossa bucólica cidade é o seguinte. Tirando os crimes políticos desta nossa estatística, os crimes urbanos que resultam em violência são localizados. Ora decorrente de brigas entre conhecidos, farras em bar, shows ou pelo crime organizado. E alguns casos, poucos casos, ainda se encontram o secular crime passional.
Bom, e qual é a moda agora, aqui na nossa Filipéia, em relação ao crime organizado? O assalto a bancos. Ou mais precisamente, a bancários. Isso, os bandidos acham que bancários são os banqueiros. Por ignorância ou maldade, eles nos confundem com os banqueiros.
Nós somos pais de família, somos trabalhadores, cumpridores dos nossos deveres e sobreviventes, pois tudo o que fazemos é para termos o pão nosso no final do mês. Não somos ricos e nem “endinheirados”. Por mais que achem, nós bancários não ganhamos bem, seja empregado de banco público ou privado, seja gerente ou não. Nós ganhamos no máximo, o justo para o que fazemos, mas na maioria, o injusto pelo que passamos.
E agora virou moda seqüestrar gerente de banco, achando que assim eles tornam o caminho mais curto para o dinheiro, para a sorte grande da loteria! Não é assim. Bancário não é banqueiro.
A sociedade precisa saber (e os bandidos também), que além de não termos dinheiro em casa e nem a chave para o “sucesso da empreitada”, pois tudo hoje é monitorado, é controlado e não depende de apenas uns poucos e sim de todo um sistema, onde nós, bancários, continuamos pequenos. Não vai ser o gerente do banco que vai levar o bandido à porta do cofre. É um sistema que não envolve apenas pessoas, mas toda uma engrenagem, e que muitas vezes levam a um cofre vazio, pois estamos vivendo uma época diferente daquela dos “faroestes”, em que os cofres viviam cheios de cédulas.
Por favor, avisem aos bandidos! Deixem as famílias dos bancários em paz, pois elas não têm nada a ver com isso e nem tem nada! Muito menos em casa.
Ali, no lar, só reina o desejo de viver em paz, com os seus filhos e a família.
Quando os bancários fazem uma greve muitas vezes a sociedade não entende que o que menos importa no resultado de um movimento desses, não é o percentual do ganho. E já ouvi muita gente na rua dizer assim: “Ah, tai! Tantos dias parados pra nada, só para nos atrapalhar e o patrão não deu quase nada de aumento”. Mas o que essas pessoas não sabem é que o que mais importa nas negociações está numa cláusula: “Das Condições de Trabalho”.
Agora é assim, seqüestram o gerente, o filho, estupram a esposa, ameaçam a família toda, colocam todos sob a mira do revolver (vocês já imaginaram o que é ter uma arma apontada na cabeça, um filho seu assim ou a esposa / marido?) e fazem o que acham que podem fazer com você, deixando-o bem pequenino e humilhado. À custa de quê?
Muitos amigos e companheiros bancários já acham hoje que nem vale a pena mais ocupar uma função desta, pois não se vive mais tranqüilo. Ao acordarem para trabalhar, não sabem se saem de casa. Ao sair da Agência, acham que estão sendo seguidos. Voltando para casa, não sabem se chegam. E se vão dormir, não sabe quem ronda o seu lar para invadi-la. Por fim, se não estão em casa, não tem sequer a segurança que sua família está bem, se o filho está no colégio, a filha na aula de ginástica, etc. O pânico está tomando conta de todos, que nem mais o direito a sair no final de semana para uma praia, um restaurante ou um momento de laser.
Quero parabenizar aqui o meu colega Marcos Henriques, do Sindicato dos Bancários. Que está tendo a iniciativa de procurar os meios preventivos para combater essa situação. É verdade que sozinha será apenas uma voz na multidão, mas este tema já está tomando conta dos debates nos meios de segurança em nosso estado.
Mas os bancos e os banqueiros têm que compreender que a segurança hoje da agência bancária não é mais a única ação a ser tomada. Temos que nos preocupar também com a segurança pessoal dos bancários, sejam gerentes ou não, pois a prova está ai. Seqüestrando o gerente ou sua família é porque pensam que é a única maneira de entrar fácil no esquema se segurança da agência, e assim, terem acesso ao “monte” de dinheiro que pensam lá existir.
Gente, bandidos, nós somos bancários, repito. Não somos banqueiros!
Precisamos viver!
 
Artigo de João Bosco Ferraz de Oliveira, pernambucano radicado em João Pessoa há mais de 25 anos, formado em Economia e Direito, ex-administrador da Caixa Econômica Federal.
Fonte: Blog do Bosco (http://blogdojbferraz.blogspot.com/