Os bancos privados encerraram 2009 desarmando o arsenal anticrise e prontos para retomar a disputa pelo filão mais promissor do mercado: o crédito. Após crescimento tímido no ano passado, os grandes bancos privados planejam expandir seu crédito e recuperar o terreno perdido para as instituições públicas. Na mira, uma expansão em torno de 20% no ano.

O Bradesco, que foi o mais agressivo dentre as maiores instituições privadas, viu sua carteira de crédito ter expansão de apenas 5,8% em 2009. No Itaú Unibanco, o aumento foi de 3,6%. Já o Santander amargou encolhimento de 1,3%.

"Com as boas perspectivas para a economia neste ano, os privados vão entrar para tentar retomar o espaço que perderam. Mas o BB, que cresceu muito durante a crise, não deve querer perder o que conquistou. Vai ser uma briga de gente grande", diz Pedro Galdi, analista-chefe da SLW Corretora.

Em 2009, os bancos públicos ampliaram sua fatia no mercado de crédito de 36,2% para 41,4%. A eclosão da crise financeira levou os bancos privados a frearem a oferta de crédito, em meio à explosão da inadimplência e à desaceleração da economia. Nesse período, o governo acionou as instituições públicas para ocuparem espaços abertos, o que se refletiu no avanço, especialmente, do BB.

Otimista, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, fala em crescimento de até 25% na concessão de empréstimos neste ano. "O maior crescimento dos bancos oficiais ocorreu devido a uma postura anticíclica. Mas o crédito é um foco fundamental de uma instituição como o Bradesco", disse o executivo quando anunciou o balanço de 2009, já de olho na retomada do crédito.

"Além do maior apetite dos privados, não se pode ignorar que o BB está com um nível mais baixo de Basileia que seus principais concorrentes. Isso significa que, nas atuais condições, tem menos espaço para crescer no crédito", avalia Luis Miguel Santacreu, analista financeiro da Austin Rating.

O índice de Basileia faz parte de um acordo internacional e mede a relação entre o capital de um banco e o volume de empréstimos. Pelas regras brasileiras, o índice deve ser de, no mínimo, 11%. A cada R$ 100 emprestados, os bancos precisam ter R$ 11 em patrimônio.

Em setembro, o BB contava com índice de 13,29%. O Santander apresentou índice de 25,6% em seu balanço anual. O Bradesco, índice de 17,8%, e o Itaú Unibanco, de 16,7%. Ou seja, segundo esses critérios, os privados contam com maior espaço para avançarem.

O crédito mais fraco em 2009 não se refletiu em um ano ruim para o setor, que buscou formas de lucrar em outros espaços. Retornos com serviços bancários, seguros e tesouraria foram fundamentais para que os gigantes privados conquistassem lucro líquido de R$ 23,8 bilhões em 2009, o que representou um crescimento de 9,5%.

Isso permitiu que a rentabilidade sobre o patrimônio -que serve para avaliar o potencial de retorno de uma empresa- se mantivesse elevada. No caso do Santander, a rentabilidade foi de 16,8% para 19,3%. No Itaú Unibanco, recuou de 23,4% para 21,4%, e, no Bradesco, de 23,7% para 21,8% -apesar da baixa, ficaram em níveis altos.

 
 Fonte: Folha de São Paulo  / Fabrício Vieira