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brasil_-_lucro_dos_bancos_ii.jpgO lucro líquido de oito bancos privados que já publicaram seus balanços aumentou 24,1% em 2009, na comparação com 2008, a despeito da crise que fez crescer os índices de inadimplência e abateu o nível de atividade geral da economia. O resultado foi turbinado pelo Itaú Unibanco, que divulgou o maior ganho da década do setor bancário no país: R$ 10,067 bilhões, 29% a mais do que o lucro contábil informado em 2008 (de R$ 7,803 bilhões).

Em valores nominais, o segundo melhor valor é o do Banco do Brasil em 2008 (de R$ 8,8 bilhões).

De acordo com compilação feita pela Austin Rating, a soma do lucro dos oito bancos chegou a R$ 23,174 bilhões em 2009, contra R$ 18,675 bilhões um ano antes. Além do Itaú, fazem parte da amostra Bradesco, Santander, BMG, ABC Brasil, Industrial, Modal e BRP. Os bancos foram buscar na tesouraria os recursos para compensar a estagnação da receita com empréstimos. O ganho com títulos e valores mobiliários e derivativos passou de R$ 31,4 bilhões para R$ 41,3 bilhões – alta de 31,5%. Para efeito de comparação, o avanço da receita com crédito da amostra foi de 8,3% no período; com serviços e tarifas, de 12,1%.

Também foi maior a contribuição de áreas como seguro e previdência para o faturamento total dos bancos – no caso do Bradesco, chega a 30%. Pela pesquisa da Austin, a contribuição de seguros para a amostra de oito bancos avançou 22%.

– A tesouraria compensou o que os bancos gastaram a mais com provisão para inadimplência – disse o presidente da consultoria, Erivelto Rodrigues.

Com a perspectiva de crescimento acelerado da economia, Rodrigues estima para 2010 uma variação entre 22% e 24% da carteira de crédito. Em linha, os lucros dos bancos devem registrar aumento superior a 20%.

Maior instituição privada do país, o Itaú Unibanco diz que os sinais de melhora da economia começaram a aparecer no quarto trimestre de 2009, com a queda da inadimplência e aumento da demanda por empréstimos.

Só neste período, o lucro líquido foi de R$ 3,21 bilhões, um salto de 71,7% sobre 2008. Já a carteira total de crédito, no valor de R$ 278,38 bilhões, avançou 3,6% sobre setembro e 2,4% em 12 meses. Outro indicador importante, a inadimplência média recuou de 5,9% em setembro para 5,6% em dezembro, considerando as operações vencidas há mais de 90 dias. O índice estava em 3,9% em 2008.

– Essa tendência vai se manter agora em 2010 – afirmou o diretorexecutivo de Controladoria da instituição, Silvio de Carvalho.

BB tem estratégia para se manter líder

O Itaú Unibanco prevê crescimento de 18% para sua carteira de crédito neste ano, com destaque para o segmento imobiliário (com alta de até 40%). A previsão já considera a possibilidade de elevação da Selic (a taxa básica de juros), que o banco espera para a partir de abril (para fechar o ano entre 11% e 11,5%).

Em 2009, a instituição viu crescer a concorrência dos bancos públicos, que se aproveitaram da cautela dos bancos privados para avançar no mercado de crédito. Carvalho admitiu que a instituição tomou medidas "para um nível de crise muito maior do que acabou vindo". As provisões adicionais (além do mínimo exigido pelo Banco Central) para devedores duvidosos ainda somam R$ 6 bilhões.

– Estamos satisfeitos com nossa estratégia. O share perdido não é relevante e faz parte do curso normal da operação – disse ele, que anunciou a integração total das agências do antigo Unibanco ao Itaú até dezembro, um ano antes do cronograma inicial de unificação.

O resultado não surpreendeu o Banco do Brasil (BB), que está às vésperas de divulgar seu balanço de 2009. Desde o ano passado, a maior instituição financeira do país – que chegou a perder o posto para o grupo surgido da união entre as famílias Setúbal e Moreira Salles, no fim de 2008 – sabe que precisa apostar num grande plano de expansão para manter a liderança.

A ofensiva tem ações planejadas nos mercados doméstico e internacional.

No primeiro caso, uma das armas é continuar focando no mercado de crédito em geral, com destaque para os grandes projetos e para a população de menor renda. Os dois grupos sofreram os reflexos negativos causados pela crise internacional e viram as fontes de recursos praticamente secarem.

Não por menos, o banco calcula que sua carteira de crédito vai crescer cerca de 20% em 2010, acima dos 17% projetados para o ano passado – a média de mercado deve ter ficado em 14,9%, segundo analistas. O BB vai continuar centrando forças nos empréstimos para pessoas físicas e, sem os riscos do ano passado, olhar com mais carinho para a classe C.

Um dos mecanismos pelos quais o BB pretende levantar recursos no mercado será a capitalização a ser promovida pelo seu principal acionista, o Tesouro Nacional. Segundo o presidente da instituição, Aldemir Bendine, o BB pretende levantar entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões em 2010.

A proximidade da Copa do Mundo no Brasil (2014), das Olimpíadas no Rio (2016) e de outros grandes eventos no curto prazo, como a exploração da camada do pré-sal, levaram o banco a criar grupos internos para desenvolver projetos onde o BB pode ser parceiro, fornecendo recursos.

BC aprova emissão de bônus perpétuos

Outro caminho importante para o crescimento em 2010 será o mercado de seguros, área que já vem sofrendo importante reestruturação dentro do banco. O BB também quer criar – ou comprar
– uma corretora de valores, área que é enxergada pelos executivos como uma falha dentro da instituição, já que ela tem de usar a de terceiros.

No front internacional, o BB não esconde seus planos de comprar instituições em países da América Latina e nos Estados Unidos. Já conversa com o argentino Patagônia mas também tem contatos no Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai. No território americano também há conversas.

Ontem, o Banco Central (BC) aprovou a emissão dos bônus perpétuos realizada pelo BB de cerca de US$ 1,5 bilhão. O montante, agora, poderá fazer parte do capital do banco e, assim, melhorar seu índice de Basileia – que exige que as instituições financeiras tenham em caixa R$ 11 para cada R$ 100 emprestados.

A melhora será de 0,8 ponto percentual.

 
Fonte: O Globo / Aguinaldo Novo e Patrícia Duarte