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carnaval13.pngNão se sabe o que nasceu primeiro, se o Brasil ou o sentimento carnavalesco de seu povo. Mas isso, em verdade, não faz a menor diferença diante de grande e insofismável realidade.

Entre nossos valores mais caros, lá, enraizado entre a fé em Deus, o patriotismo exacerbado, o apego à família, a paixão pelo futebol arte, o gosto pela culinária nativa, está o espírito carnavalesco. Não adianta. Se alguém lhe disser que não gosta de carnaval, não acredite totalmente.

Alguma marchinha ele conhece. Ou sabe algum verso daquele samba-enredo que marcou uma geração. Ou cantarola “quanto-riso-ó-quanta-alegria-mais-de-mil-palhaços-no-salão-Arlecrim-está-chorando-pelo-amor-da Colombina-no-meio-da-multidão…”. Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. Definitivamente. O samba nasceu lá na Bahia, veio da senzala, conquistou as quadras das escolas de samba, as avenidas, o Brasil e o mundo.

Não há quem não acompanhe, extasiado, o desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí ou não veja a alegria contagiante dos baianos indo atrás do trio elétrico, pois só não vai quem já morreu…

Não há uma única cidade neste Brasil continental e tão diverso, de tantos sotaques e de tanta pluralidade cultural, em que não haja uma manifestação carnavalesca, por menor que seja, uma apenas e tão somente, que simbolize a alegria do carnaval. Está na formação e no espírito da raça, está no calendário cultural e turístico, mas também está na alma.

Republicanos até a medula, reverenciamos com respeito e alegria o Império de Momo e caímos na folia durante os dias de descontração, alegria, música e dança. É, apenas e simplesmente, a maior festa popular do mundo. Vemos no ronca-ronca da cuíca, gente pobre e gente rica, deputado e senador, madame e cabrocha, o alegre mais alegre, o triste em estado irreconhecível, se rendendo ao instante mágico em que o Brasil festeja sua diversidade racial, cultural, seus sons e cores, suas crenças e afetos, em que festejamos a imensa dádiva de termos nascido na grande nação onde o carnaval não é festa pagã coisa nenhuma: é síntese do Brasil alegria.

Dos cordões ingênuos que animavam os carnavais do Rio de Janeiro, capital da Colônia lusitana, ao entrudo embalado pelas marchinhas irônicas ou aos modernosos abre-alas de Chiquinha Gonzaga, mulher avançada e compositora de enorme talento, o carnaval tem sido um apurado retrato da evolução de nosso País. Ele entrou o século XX com os corsos, desfiles de automóveis, onde as nascentes burguesias urbanas carioca e paulistana, motorizadas, percorriam as ruas arborizadas das duas maiores cidades de um Brasil ainda pasmacento e sem criminalidade, e entre marchinhas, lança-perfumes, serpentinas, confetes e máscaras, davam início as festividades.

Da década de 40 para cá, o carnaval tomou outra importância, tornando-se quase uma “commoditie” para a economia nacional. O carnaval “vende” a imagem do Brasil no exterior, atrai turistas e investimentos, capta divisas, movimenta a indústria do turismo (hotéis, restaurantes, locadoras, bares, receptivos turísticos, empresas aéreas).

Numa simbiose fantástica, a alegria de nosso povo mais humilde, o talento de nossos compositores dos morros cariocas, a empolgação das escolas de samba, o pau elétrico inventado por Dodô e Osmar, os milhões de decibéis dos trios elétricos imortalizados pelo gênio de Gilberto Gil no “Expresso 2222”, os requebros e a graça de nossas lindas mulatas, as multidões arrastadas pela tradição do Galo da Madrugada nas ruas do Recife, e nas seculares vielas de Olinda gigantesca figura do Homem da Meia-noite, a dignidade dos mestre-salas e a imponência majestosa das porta-bandeiras, rainhas das avenidas e soberanas do desfile que eletrizam o mundo e explodem em luz, cor e som nas telas de TV, nos trazem alegria e movimentam uma bilionária indústria sem chaminés, não poluente, sustentável, do bem, absolutamente da paz, fundamental para nosso desenvolvimento econômico e par a a preservação de nossa cultura.

Essa formidável indústria que gera alegria e empregos, descontração e divisas, trará quase 2 milhões de turistas estrangeiros ao Brasil no carnaval de 2010. No Rio de Janeiro, eles chegarão ao 700 mil e deixarão cerca de R$ 700 milhões. No carnaval da Bahia, passam de 500 mil e as cifras alcançam os R$ 700 milhões. Mesmo São Paulo, que num momento de rara infelicidade foi qualificado como o “túmulo do samba”, hoje tem um dos melhores carnavais do País com escolas de samba de altíssimo nível, 30 mil turistas gastarão R$ 50 milhões.

Na festa onde a igualdade e a fraternidade dão o tom com a mesma competência com que o lendário mestre André comandava a bateria da Unidos de Padre Miguel, relembremos os blocos de sujos, o Cordão da Bola Preta, a imorredoura criação de Jorge Amado na imagem de Vadinho, folião travestido morrendo num domingo de carnaval nos braços de sua amada dona Flor, as comissões de frente de outrora com Pixinguinha, Monarco, Cartola, Braguinha, um tempo que, infelizmente, não voltará jamais.

Um carnaval de muita alegria e de muita paz para todos.

 
Artigo do professor Delúbio Soares
(Site/blog e twitter: www.delubio.com.br / twitter.com/comdelubio)