Você já se cadastrou no Débito Direto Autorizado (DDA) do seu banco para receber seus boletos de cobrança eletronicamente? Nada mudou e você continua recebendo faturas de cartão, da TV a cabo e do plano de saúde pelo correio, enquanto a despesa do condomínio vem pelo porteiro do prédio e a mensalidade escolar pelo seu filho? Pois é: tem sido mesmo assim.

Embora com pouco menos de quatro meses de vigência no mercado brasileiro o DDA possa ser classificado como um sucesso de público e crítica, com mais de 45 milhões de boletos registrados na Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP) e com um movimento de R$ 207 bilhões, o serviço ainda está longe de atender plenamente à população. Até aqui, o avanço é observado junto à cadeia de pagamentos do mundo corporativo. Inclinação da pessoa física para usá-lo, entretanto, há: dos 2,83 milhões de usuários (sacados) que aderiram ao DDA, 80% referem-se a registros de CPFs.

O que está por trás dessas estatísticas aparentemente contraditórias é o desafio dos bancos de trazer para a chamada cobrança registrada o universo de boletos que hoje são impressos e postados pelos próprios cedentes, em geral no segmento de serviços. Segundo Leonardo Ribeiro, coordenador de comunicação do projeto DDA na Federação Brasileira de Bancos (Febraban), 70% dos documentos de cobrança que circulam no mercado não são emitidos pelas instituições financeiras e sim pelos clientes. "Esse deve ser o grande movimento para 2010, a vocação do DDA não é a pessoa jurídica." No caso da cobrança simples -aquela feita pela própria empresa -, o banco só toma conhecimento dos pagamentos quando eles batem na sua compensação. Somente boletos emitidos dentro do sistema de cobrança registrada – aquela feita pelo banco – são "reconhecidos" pelo sistema do DDA.

Uma das diferenças da cobrança registrada é que ela permite que o cliente contrate com o banco a cobrança dos pagamentos em atraso e o envio dos títulos para protesto. Mas, segundo Ribeiro, muitas empresas de serviços não vêm vantagem nisso porque qualquer inadimplência já acarreta interrupção de uma cobertura de seguro ou na suspensão da assinatura de TV a cabo, por exemplo. No varejo, alguns lojistas também imprimem o carnê das prestações e o entregam junto com a mercadoria direto para o cliente. Mesmo entre os próprios bancos, como emissores de cartões, uma das inconveniências é que hoje o boleto eletrônico não vai acompanhado do extrato de gastos do consumidor – mas essa é uma pendência que o DDA deve resolver numa segunda fase, acrescenta o gerente executivo do Banco do Brasil, Sidney Passeri. Tributos e boletos de concessionárias de serviços públicos também devem ser integrados ao serviço ao longo do tempo.

Para converter a base atual de cobrança no mercado, que supera os 2 bilhões de títulos ao ano, a economia de tempo pode ser um bom argumento, diz Walter Tadeu Pinto de Faria, assessor técnico da Febraban. "A entrega da cobrança física leva hoje de sete a oito dias para ser efetivada, enquanto no DDA em dois dias ela chega ao destinatário." Na forma eletrônica, também não há custos de impressão e de postagem.

A resistência das empresas se justifica por um histórico não muito distante em que a cobrança simples e a registrada tinham uma diferenciação de preços significativa, conta Sandra Boteguim, diretora de produtos de pessoa jurídica do Itaú Unibanco. "Há dez anos , o valor (da registrada) era quase o dobro porque não existia e-mail para troca de arquivos, havia um processo de digitação manual de borderôs e ficou esse paradigma." O custo de armazenamento de dados para as instituições existente no passado também não se compara ao atual, acrescenta o superintendente do Itaú, Ângelo Russomano Fernandes. "O espaço de um mega era caríssimo, mas o avanço tecnológico mudou isso."

No Itaú, para incentivar a modalidade, o boleto registrado custa R$ 4,10 e já é mais barato do que a cobrança simples, a R$ 4,20 – pelos valores da tabela, sem considerar eventuais negociações. Tal realinhamento já vem sendo feito por outras instituições. No Itaú, além de se deparar com essa sensível economia para rodar a sua cobrança, o cliente usa, online, o próprio "software" da instituição, sem ter que dispor de recursos para desenvolvimento de sistemas. Adicionalmente, ele pode ter seus limites de crédito elevados e a taxas menores, já que é possível identificar todo o fluxo de recebimentos.

A antecipação de recebíveis, com a concessão de crédito com base na carteira de sacados, promete ser uma das grandes tendências a estimular a conversão da cobrança simples em registrada, espera o diretor comercial do Banco do Brasil, Sandro Marcondes. Outra aposta da instituição é na adesão de cadeias de fornecedores, quando um grande sacado opta pelo DDA. É o caso da Petrobras, que se cadastrou no BB na semana passada para receber seus títulos eletronicamente. "Um sacado desse porte tem como exercer pressão e induzir todos os seus prestadores de serviços ao registro."

Quando a cobrança é registrada, automaticamente ela fica elegível para apresentação eletrônica no DDA. Ao sacado cabe escolher a via que lhe é mais conveniente, se eletrônica ou por meio da entrega física. O BB já contabiliza 1,15 milhão de sacados eletrônicos e R$ 24 bilhões em boletos compensados eletronicamente.

Para vencer a barreira dos segmentos da sua carteira de cobrança que não abrem mão de fazer a emissão e a postagem do boleto, o Santander passou a oferecer a opção do registro mesmo para esses casos, conta o superintendente executivo de "cash management", Lauro Silva. Basta o cliente enviar um arquivo para que o banco registre os títulos. A partir daí, a empresa tem como saber quais clientes pagaram o boleto eletronicamente e, a partir do próximo mês, optar por não emitir o título impresso. Para as companhias com grandes volumes de boletos, o banco pode fazer essa identificação antes mesmo da cobrança, cruzando dados com a base de clientes registrados no DDA. No Santander, 400 mil clientes (sacados) foram incluídos no DDA.

Mesmo no Bradesco, onde a taxa de cobrança registrada é muito superior à média de mercado – 80% do total -, o volume feito via DDA ainda é uma minoria. O banco tem 620 milhões de títulos registrados em sua cobrança e, segundo o diretor de produtos e serviços, Altair Antônio de Souza, tomando como base a movimentação de dezembro, dos clientes que optaram pelo serviço, o banco estima que deixará de emitir mensalmente 8 milhões de boletos. O banco também espera que o oferecimento de crédito com base na cobrança registrada estimule o maior uso do DDA pelas empresas.

 
Fonte: Valor Econômico / Adriana Cotias