O aumento da participação do BNDES no mercado de crédito, como forma de compensar a queda mundial nos financiamentos devido à crise, levou o banco a registrar um lucro de R$ 6,7 bilhões no ano passado -26,8% a mais do que os R$ 5,3 bilhões de 2008. No período, o banco ampliou de 17% para 20% sua fatia na oferta de crédito do país.

O lucro, porém, não é recorde, embora assim tenha sido o volume de recursos liberados em 2009, de R$ 137 bilhões. O resultado está 8,2% abaixo dos R$ 7,3 bilhões lucrados no ano de 2007, antes da crise, quando o banco financiou R$ 65 bilhões, ou menos da metade do valor de 2009.

Uma das explicações do BNDES para o "não recorde" no lucro é a queda no "spread" -diferença entre a taxa de juros que o banco paga na captação e a taxa com que empresta ao mercado. "Temos as menores taxas de juros do mercado", diz o presidente do banco, Luciano Coutinho.

Em meados de 2009, o BNDES chegou a zerar o "spread" de algumas linhas para a compra de bens de capital (máquinas e equipamentos), cobrando só a inflação do período, como tentativa de fazer o setor produtivo reagir à crise.

Outro fator que impediu que o lucro crescesse na velocidade dos financiamentos foi a piora do mercado de capitais. O BNDES costuma vender algumas participações acionárias de menor relevância em momentos de alta, contabilizando o lucro.

Com a queda generalizada no preço das ações, nos meses após o pior da crise, o banco optou por frear a venda dos papéis que tem em carteira, como costuma fazer. O resultado com a venda de títulos e valores mobiliários (principalmente ações) caiu de R$ 4,6 bilhões para R$ 1,2 bilhão, ou 74%.

"No ano passado, aproveitamos a queda nos preços para comprar ações mais do que vender", disse Coutinho, sem detalhar quais.

Para o analista de bancos da agência de classificação de risco Austin Rating, Luiz Miguel Santacreu, o resultado é robusto. "O lucro deve colocar o BNDES entre os quatro melhores resultados do sistema financeiro, junto com Banco do Brasil, Itaú e Bradesco."
O Bradesco lucrou R$ 8 bilhões em 2009, e o Itaú, R$ 10 bilhões. O Banco do Brasil divulgará o seu resultado no próximo dia 25.

Com a crise, o índice de inadimplência praticamente dobrou, de 0,11% para 0,20% da carteira. O banco considera o percentual pequeno. Santacreu concorda. "Os demais bancos estão trabalhando com inadimplência média de 4%."

O índice de Basileia -um dos indicadores de saúde financeira da instituição- está em 17,5%, acima dos 11% mínimos exigidos. O indicador traduz quanto um banco pode emprestar em relação a seu patrimônio. Na prática, portanto, com esse índice o BNDES tem condições de emprestar mais sem pôr em risco sua saúde financeira.

O banco também informou ter sido beneficiado, em R$ 600 milhões, por uma decisão judicial. Esse valor estava provisionado para compensar uma perda que acabou não ocorrendo. Com isso, acabou sendo revertido para o resultado do banco. O BNDES não informou a que empresa ou negociação a provisão se referia.

 
Fonte:  Folha de São Paulo / Samantha Lima