Os grandes bancos reduziram fortemente a captação via certificados de depósitos bancários (CDB) desde o fim da crise. No segundo semestre do ano passado, os resgates desses papéis por parte dos investidores superaram as aplicações em R$ 27,9 bilhões, reduzindo o estoque desses títulos em 6%, para R$ 511 bilhões, segundo dados do Banco Central (BC).

De acordo com os próprios bancos, as instituições estão muito líquidas, ou seja, com muito dinheiro em caixa, por isso o menor apetite em colocar novos títulos no mercado. Um exemplo é o Itaú Unibanco, que reduziu o estoque em 13,8% no ano passado, fechando o ano com R$ 102,5 bilhões.

"Olhando a disponibilidade de caixa e as previsões de crescimento de carteira (de crédito), estamos muito confortáveis em manter o mesmo modelo para este ano", disse Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco, em teleconferência com analistas sobre o balanço.

O Santander, por conta dos mais de R$ 13 bilhões que captou com o lançamento de ações no ano passado, reduziu seu saldo de CDB no mesmo montante, de R$ 88,9 bilhões para R$ 75,8 bilhões. O Bradesco fez movimento semelhante.

A situação de excesso de recursos mantidos pelos bancos se explica, em parte, pela massiva captação realizada pelas grandes instituições antes e durante a crise, como forma de se proteger contra as turbulências externas.

Em 2008, os depósitos a prazo pularam de R$ 273 bilhões (dezembro de 2007) para R$ 518,5 bilhões no fim do ano. Além da crise, as instituições também reforçaram as emissões para compensar a medida do BC, de janeiro de 2008, que instituiu recolhimento de depósito compulsório para as emissões de debêntures das leasings. Essa era uma fonte de captação amplamente usada pelos bancos.

O excesso de liquidez também é decorrência da menor expansão do crédito, disse Silvio de Carvalho, diretor-executivo do Itaú, também na divulgação do resultado. O índice de Basileia (que mede a alavancagem) do Itaú é de 16,7%, do Bradesco é de 17,8% e do Santander, 25,2% – o mínimo exigido pelo BC é 11%. Ou seja, os bancos estão com folga para emprestar

Adicionalmente, pelo lado dos compradores dos CDBs, outras opções de investimento se mostraram mais atrativas e drenaram parte dos recursos, como os fundos de investimento, a bolsa e até mesmo a poupança.

Para este ano, a expectativa é de manutenção do cenário de reduzida emissão de CDB. Segundo Setubal, o Itaú irá buscar produtos mais baratos, sem captar de forma relevante no mercado. Até 12 de fevereiro, dados do BC apontam estabilidade do estoque, em R$ 511 bilhões. Em janeiro as saídas líquidas somaram R$ 4 bilhões, enquanto fevereiro acumula aplicações de R$ 4,3 bilhões.

Mas não é só a liquidez que vem pesando na estratégia. A principal referência para as taxas pagas pelos bancos nos CDBs é o mercado de juros da BM&F e o contrato de swap de 360 dias, considerado o piso do crédito bancário, atualmente paga prêmios bem mais altos. Dada a expectativa do mercado de aumento da Selic, o Swap 360, que chegou a ser negociado abaixo dos 9% no meio de 2009, fechou ontem em 10,55% ao ano.

Ao mesmo tempo, por conta da esperada competição entre os bancos para retomada de mercado perdido na crise, a tendência para o ano é de queda dos spreads bancários (diferença entre o custo de captação do banco e a taxa para o tomador final). É de se esperar que os bancos evitem pagar prêmios muito altos na captação para preservar suas margens de lucro.

Hoje, as grandes instituições estão pagando taxas bastante abaixo das vistas em 2008, quando viram o juro superar 104% do CDI. Neste início de ano, as taxas oscilam entre 98% e 100% do CDI.

Os bancos médios, que vinham com boa liquidez desde a criação, em março de 2009, do DPGE (depósito a prazo com cobertura especial do Fundo Garantidor de Crédito), conseguiram um fôlego maior no fim do ano com a saída das grandes instituições do mercado de CDB. As taxas pagas pelos bancos menores, que ultrapassaram 150% do CDI antes que o mercado se fechasse para eles na crise, recuaram agora para 105% a 115% do CDI e as instituições até reduziram o apetite pelo DPGE.

Fonte: Valor Econômico / Fernando Travaglini