O Banco de Espanha deverá ampliar a exigência do nível de provisões que impõe às instituições financeiras espanholas para garantir ativos imobiliários comprados de incorporadoras em dificuldades. A decisão do banco central comprometerá ainda mais lucros do setor, já abatido pela recessão econômica, segundo fontes financeiras e analistas do setor bancário.

Em novembro, o Banco de Espanha elevou sua exigência de provisionamento de 10% para 20% do valor de uma propriedade nos casos de imóveis em carteira há mais de um ano, e agora acredita-se que o provisionamento terá de subir para 30%.

No entanto, o regulador ainda não notificou formalmente os agentes que concedem financiamento. A provável mudança reflete uma crescente percepção entre as os supervisores bancários e investidores de que os bancos e caixas espanhóis – instituições de poupança e empréstimo sem ações em bolsa – andaram "massageando" as taxas de inadimplência de seus tomadores, refinanciando incorporadoras imobiliárias em troca de casas, apartamentos e participação nas empresas, em vez de deixá-las falir.

A corretora Iberian Equities estimou ontem que os bancos espanhóis com ações em bolsa detinham ativos imobiliários num total superior a ? 12,6 bilhões no fim do ano passado, ao passo que as "cajas" tinham ? 33 bilhões.

Santander e BBVA, os dois maiores do país, assumiram prejuízos de cerca de 30% do valor de seus empréstimos. Mas a proposta de aumento dos requisitos de provisionamento deverá chegar a ?1 bilhão, ou um quinto dos lucros nos bancos menores em 2010, e de ? 5,3 bilhões a ?5,9 bilhões, ou um quinto dos lucros, para as "cajas", segundo a Iberian Equities.

Um recente turbilhão de troca de dívidas por ativos e de dívida por participação de capital envolvendo empresas imobiliárias como Colonial, Reyal Urbis e Metrovacesa, aprofundou o ceticismo dos analistas e investidores sobre a verdadeira posição de inadimplência das firmas que tomam empréstimos de instituições espanholas. A exposição total às incorporadoras imobiliárias é de ? 324 bilhões.

"Enquanto os créditos de recuperação duvidosa aumentaram rapidamente nos últimos dois anos, o reconhecimento de ativos problemáticos foi muito mais lento do que a gravidade da recessão poderia sugerir", escreveu Jamie Dannhauser da Lombard Street Research.

Há suspeitas, em especial, envolvendo a maneira como o percentual coletivo de empréstimos problemáticos das "cajas" atingiu um platô e começou a baixar, até 5,05% dos ativos em dezembro.

Isso é apenas ligeiramente superior aos 5,02% no caso dos bancos, cujas contas são geralmente mais transparentes.

Se os números estivessem corretos, isso seria a melhor notícia "sobre a economia espanhola que ouvi em muito tempo", disse Garicano Luis, professor de economia e estratégia na London School of Economics, em um blog sobre a Espanha. "Pessoalmente, não acredito nisso. Os números sobre financiamentos problemáticos das ‘cajas’ não fazem muito sentido."

Garicano disse que não será possível restabelecer a credibilidade do sistema financeiro se a agência regulamentadora tolerar "esses jogos contábeis".

O aperto do Banco da Espanha pode, em alguma medida, neutralizar essas críticas.

Fonte: Valor Econômico/ Victor Mallet, de Madri