O Banco Central vai revogar, a partir de março, as principais medidas anticrise adotadas no final de 2008 para aumentar a quantidade de dinheiro em circulação na economia.

A mudança amplia o volume de recursos que os bancos têm de recolher obrigatoriamente aos cofres do BC (os depósitos compulsórios) e vai retirar da economia R$ 71 bilhões.

Com a medida, o custo dos empréstimos bancários deve ficar maior, já que haverá redução do volume de recursos disponíveis para os bancos concederem financiamentos. Para o BC, no entanto, as taxas de juros não serão afetadas.

Os R$ 71 bilhões representam cerca de 70% do que o BC injetou na economia com a flexibilização do compulsório durante a crise. O objetivo agora é reduzir o "excesso de liquidez".

Dos R$ 50 bilhões que continuam com os bancos para empréstimos, a maior parte do dinheiro (R$ 29 bilhões) se refere às operações de compra de carteiras que as grandes instituições fizeram para socorrer bancos pequenos e médios que ficaram sem caixa.

Há ainda outros R$ 21 bilhões que permanecerão em circulação devido à manutenção de regras adotadas no final do ano passado para aliviar os efeitos da crise.

Outros países, incluindo os EUA, também já começaram a rever medidas adotadas durante a crise global para injetar dinheiro na economia. No Brasil, esse processo está mais adiantado. Além da mudança nos compulsórios e do retorno dos dólares emprestados no final de 2008 para as reservas brasileiras, o BC deve começar, em breve, a aumentar os juros.

A ideia do Banco Central ao desmontar seu arsenal anticrise é se antecipar ao que o presidente da instituição, Henrique Meirelles, considera uma tendência internacional: os recolhimentos compulsórios deixarão de ser um instrumento de política monetária – peça importante na definição da taxa de juros- para se tornar uma espécie de reserva prudencial.

Na prática, ficaria como uma poupança depositada no BC que pode ser imediatamente liberada pelo governo, no caso de crises de liquidez, como aconteceu no final de 2008 e durante boa parte do ano passado. "Quando definirmos os [novos] percentuais desse colchão de liquidez, os compulsórios serão parte dele", afirmou Meirelles.

Segundo o diretor de Política Monetária, Aldo Mendes, se nenhuma regra tivesse sido alterada durante a crise, o montante de dinheiro recolhido dos bancos pelo BC hoje seria de R$ 319 bilhões. Com as flexibilizações implementadas, o estoque atual é de R$ 198 bilhões.

Dos R$ 121 bilhões que sobram, R$ 71 bilhões voltarão a ficar presos no BC com as mudanças anunciadas ontem, o que equivale a 70% do dinheiro que foi liberado no final de 2008, em valores da época.

As mudanças anunciadas ontem alteram as regras referentes aos depósitos a prazo (CDB, por exemplo) e à exigibilidade adicional, um recolhimento extra que inclui também depósito à vista.

Além de aumentar as alíquotas, o BC determinou que o recolhimento do dinheiro deixe de ser feito na forma de títulos públicos e passe a ser realizado em espécie -esse dinheiro será corrigido pela Selic.

Mendes afirmou que a mudança não terá impacto sobre as taxas de juros, mesmo com o BC suspendendo o recolhimento em títulos e obrigando que seja feito em espécie. Para ele, cabe a cada banco decidir se irá restringir o crédito com essa medida. "Avalio que tende a ser neutro do ponto de vista de preços [juros]", disse.

Fonte: Folha de São Paulo / Eduardo Cucolo e Sheila D’Amorim