O Banco do Brasil pretende repetir em 2010 a mesma estratégia agressiva adotada ao longo do ano passado, quando apresentou forte expansão da carteira de crédito, de 15,5%, mesmo sem contar as aquisições de Nossa Caixa e de 49,99% do Votorantim. Contabilizando essas participações, a evolução do estoque de crédito foi de 35,2% em 12 meses.

Como consequência, a participação de mercado da instituição estatal em crédito pulou de 17,1%, no início do ano, para 20,1% em dezembro do ano passado. "Nossa estratégia se mostrou acertada e ganhamos ‘market share’. Agora vamos repetir a atuação agressiva em 2010", disse o presidente da instituição, Aldemir Bendine, em coletiva de imprensa.

"A concorrência também entendeu que nossa visão era correta e está entrando de forma agressiva, mas vamos manter ou até aumentar um pouco nossa participação de mercado", completou o executivo. O estoque de empréstimos do banco fechou o ano em R$ 320,7 bilhões, incluindo avais e fianças.

A projeção do banco para este ano é de um crescimento entre 18% e 23% para a carteira de crédito. Entre as pessoas físicas, a expansão deve ficar entre 27% e 32%, segundo a estimativa. Já no caso das empresas, a previsão é de alta de 16% a 21%. Por fim, no segmento de agronegócio, a perspectiva varia entre 4% e 9%.

Uma das apostas está na forte demanda das empresas por investimentos. De acordo com Ricardo Flores, vice-presidente de crédito do BB, somente no início do ano as análises de empréstimos acima de R$ 2 milhões atingiram a cifra de R$ 14 bilhões, superior a todo o ano passado (R$ 9,5 bilhões). "Estamos otimistas de que os investimentos vão decolar este ano", diz.

Outro segmento que pode render frutos é o crédito imobiliário. A expectativa é dobrar a carteira, hoje, em R$ 1,5 bilhões, e parte disso deve vir do Minha Casa Minha Vida, diz Paulo Cafarelli, vice-presidente do banco.

O crescimento do crédito foi o principal elemento que impulsionou o lucro líquido da instituição no quarto trimestre do ano passado, de R$ 4,155 bilhões, com alta de 41,1% em relação ao mesmo período de 2008. O resultado bruto da intermediação financeira avançou 283% no trimestre, para R$ 6,129 bilhões.

No total, o crédito às pessoas físicas teve um crescimento de 88,1% no ano passado, atingindo R$ 91,8 bilhões, o equivalente a 30% da carteira total do banco.

Um dos destaques foi o financiamento a veículos, que cresceu 209,8% em 12 meses, atingindo R$ 20,7 bilhões em dezembro. Parte importante disso veio da incorporação de metade da carteira do Banco Votorantim. O crédito consignado registrou expansão de 107,2%, chegando a R$ 36,5 bilhões, também com forte contribuição da carteira da Nossa Caixa.

Já o crédito às empresas cresceu 29%, totalizando R$ 125,3 bilhões, com destaque para o financiamento de capital de giro, que teve alta de 31,2%. O crédito ao agronegócio cresceu 4,3%, encerrando o ano em R$ 66,4 bilhões.

Uma das bandeiras do banco e que foi bastante enfatizada na divulgação dos resultados foi a qualidade da carteira. As operações vencidas há mais de 90 dias atingiram 3,3% da carteira ao final de 2009, queda de 0,3 ponto percentual no trimestre e abaixo da média do do sistema, de 4,4%. Os atrasos acima de 15 dias e 60 dias também recuaram nos últimos três meses do ano.

Segundo Bendine, presidente do BB, a inadimplência é baixa e uma das razões para isso é a concentração do crescimento do crédito em segmentos de menor risco, como consignado e veículos.

As receitas de prestação de serviço cresceram 17,9% no trimestre, com destaque para os cartões. Já a BB DTVM respondeu por 16% dessas receitas no ano, afirma Carlos Takahashi, presidente interino da instituição, fechando o ano com R$ 306 bilhões em recursos administrados, alta de 24,5% no ano.

Uma das estratégias de crescimento do Banco do Brasil para este ano é o fortalecimento da rede. O banco planeja abrir 200 novas agências em 2010, sendo 50% delas somente no Estado de São Paulo. Após a aquisição do Nossa Caixa, o BB passou a contar com 1,4 mil agências em São Paulo. Para este ano, o banco prevê a abertura de 5 mil postos de trabalho em agências da rede, dos quais 1,5 mil somente no estado paulista. Em 2011 serão outros 5 mil.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, com base no lucro de R$ 10,15 bilhões no acumulado do ano, reafirmou que a política anticrise adotada pelo governo foi um sucesso. A postura de elevar o volume de crédito, tomada pelos bancos públicos, mostrou, na avaliação do ministro, que é possível ter lucros elevados com uma ação positiva para o país.

Mantega recusou-se a comentar a queda das ações do BB e disse que isso decorre da volatilidade do mercado. Os papéis do banco estatal caíram 1,48% ontem, mais do que Bradesco (-0,16%) e Itaú Unibanco (-0,03%). A unit do Santander teve alta de 0,19%, em dia de elevação de 0,5% do Ibovespa.

Bendine demonstrou ontem preocupação com um possível vazamento dos números do banco antes da divulgação oficial e disse que vai "investigar" o caso.

Fonte: Valor Econômico /  Fernando Travaglini, Karin Sato e Arnaldo Galvão, de São Paulo e Brasília