O ano de 2009 chegou a ser marcado pelo temor de que haveria fuga de recursos dos fundos de investimento para a poupança, o que prejudicaria os bancos. Mas o balanço do ano mostrou realidade distinta. Nunca antes o mercado de fundos foi tão grande e lucrativo para as instituições financeiras.

Análise do balanço de quatro dos maiores bancos no país -Itaú Unibanco, Bradesco, Caixa Econômica Federal e Santander- revela que as receitas com a administração de fundos em 2009 alcançaram R$ 5,52 bilhões, alta de 8,3% em relação a 2008.

Dois fatores explicam os resultados expressivos do ano: as taxas de administração não foram reduzidas e o mercado de fundos registrou a maior captação de sua história (R$ 87,63 bilhões líquidos foram depositados nos fundos em 2009).

Especialistas aconselham os investidores a ficarem sempre atentos à taxa de administração dos seus fundos de investimento e a negociar com o banco a transferência para fundos de taxa menor dentro da mesma categoria de aplicação.

"A grande vantagem dos gestores é que pouca gente se preocupa com isso [taxa de administração], o que favoreceu a manutenção das taxas no ano passado. E, neste ano, o assunto tende a esfriar", disse William Eid Júnior, do Centro de Estudos em Finanças da FGV.

Quando os juros básicos (Selic) desceram abaixo dos 10%, no primeiro semestre de 2009, intensificou-se a discussão sobre se os fundos teriam de cortar as taxas de administração para manter seus aplicadores pois, com Selic mais baixa, cai o ganho. Assim, o peso da taxa de administração no ganho final aumenta. Como a poupança não cobra essa taxa, nem IR, o temor era o de que o investidor migrasse para a caderneta.

Todo fundo tem taxa de administração, forma de remunerar o trabalho do gestor. Costuma variar de 1% a 3% ao ano.

"Na medida em que voltou a crescer o volume aplicado nos fundos e os bancos mantiveram, de modo geral, as taxas que cobravam, suas receitas só cresceram. As taxas de administração são livres, o BC não tem regra que limite ou defina sua cobrança. Como a temida fuga para a poupança não ocorreu, não houve motivo para achatar as taxas", disse Luis Miguel Santacreu, analista financeiro da Austin Rating.

Taxas ascendentes

O mercado de fundos encerrou 2009 com o pico de R$ 1,41 trilhão. Neste ano (até dia 20 de fevereiro), o patrimônio já alcança nova marca recorde, de R$ 1,46 trilhão, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

"Os clientes costumam manter os fundos e os gestores. Dessa forma, a taxa de administração representa uma receita cativa para as instituições financeiras. Como a concorrência entre os fundos é limitada, é difícil algo ser alterado."

Ao menos duas categorias registraram aumento médio na taxa de administração em 2009, em rumo inverso ao esperado para o período, devido à ameaça da poupança.

A taxa média cobrada dos fundos multimercados foi de 1,42% em janeiro de 2009 para 1,48% em dezembro. Nos fundos de ações, subiu de 2,16% para 2,24% nesse período.

Como a categoria de multimercados foi a que mais captou recursos e cresceu no ano passado, a curva ascendente da taxa de administração foi bastante interessante para as instituições financeiras. A categoria captou líquidos R$ 35,61 bilhões no ano passado.
Os fundos multimercados são caracterizados por poderem aplicar sua carteira em diferentes segmentos, como ações e papéis que pagam juros.

No ano passado, a única medida tomada pelos bancos foi a de permitir que os clientes aplicassem montantes menores de recursos em fundos que exigiam aportes maiores e cobravam taxas mais baixas.

Isso ocorreu da seguinte forma: um fundo exigia aplicação mínima inicial de R$ 50 mil e cobrava taxa de 1%. Outro, do mesmo banco, exigia aporte inicial menor, de R$ 20 mil, mas tinha taxa de 2%. O que os bancos fizeram foi permitir que o cliente que tinha só R$ 20 mil entrasse no fundo que antes exigia R$ 50 mil para pagar taxa de administração menor.
 
Fonte:  Folha de São Paulo / Fabricio Vieira