A partir de abril os bancos poderão saber a exposição consolidada de cada um de seus clientes com derivativos antes de fechar uma nova transação. Poderão dessa forma evitar casos como o da Aracruz (hoje com a VCP na Fibria), que estourou no final de 2008, no qual a empresa tinha tomado um total de US$ 10 bilhões em contratos futuros e opções vinculados ao câmbio de 13 bancos sem que um banco soubesse da posição do outro.

A já batizada Central de Exposição a Derivativos (CED), uma nova empresa sem fins lucrativos que será controlada pela Febraban (federação dos bancos), vai unir em um mesmo sistema as posições das empresas registradas nas rivais concorrentes Cetip e BM&FBovespa, que vão sentar juntas no mesmo conselho de administração da CED.

Os bancos poderão saber logo pela manhã a exposição total da empresa no fechamento do mercado do dia anterior. Não vão precisar esperar a divulgação do balanço das empresas nem pedir nenhum estudo para a Cetip ou BM&F. Só precisarão da autorização da empresa cliente.

Importante: a exposição da empresa será aberta em dois cenários, um favorável à posição da companhia e outro o mais desfavorável possível, o chamado "nocional expandido". Usando o exemplo da Aracruz, se o dólar não tivesse passado uma determinada cotação, a exposição da companhia não seria US$ 10 bilhões, mas bem menor.

Os US$ 10 bilhões são "o nocional expandido" da Aracruz. A exposição que a central vai mostrar é diferente das perdas, que no caso da Aracruz foram de US$ 2,13 bilhões.

"A CED vai prover dois números grandes e genéricos para os bancos trabalharem nas suas análises de crédito para as companhias, números que precisarão ser detalhado em caso de alerta", explica Marcelo Maziero, executivo do Itaú BBA, diretor-adjunto da comissão de tesouraria da Febraban e futuro membro do conselho da CED.

Segundo ele, o grande desafio foi justamente encontrar um número que fosse útil aos bancos, mas que ao mesmo tempo não revelasse as estruturas exóticas de derivativos montadas especialmente pelos bancos para seus clientes. "Essas estruturas são complexas e são propriedade intelectual dos bancos, que não queriam abri-las para a concorrência copiar", disse o executivo.

A CED terá um sistema desenvolvido pela Senior Solution que vai conversar diretamente com os sistemas da BM&FBovespa e da Cetip, que vão mandar as informações empacotadas e consolidadas. "Iniciativas como estas seriam impossíveis fora do Brasil, onde o mercado nem sequer registra todas as transações de derivativos de balcão", diz Jorge Sant’Anna, diretor da Cetip e futuro membro do conselho da CED.

Os bancos poderão acessar os dados em tela. Serão apresentadas as exposições das empresas (por CNPJ) por tipo de fator de risco: juros, câmbio, commodities etc. Será aberto ao banco também o prazo da exposição da empresa: se de até um ano ou se superior a um ano.

Os riscos dos derivativos presentes nos ativos das empresas serão mostrados separadamente dos presentes nos passivos, sem consolidação. "A CED é um exemplo de como a autorregulação é possível no mercado brasileiro", diz Marta Alves, diretora executiva de produtos da BM&FBovespa que estará no conselho da CED.

Fonte: Valor Econômico /  Cristiane Perini Lucchesi, de São Paulo