Embalado pelo lucro de mais de R$ 10 bilhões anunciado pelo Banco do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou ontem, 2 de março, o tom estatizante de seu discurso. Arrancando aplausos de uma plateia de gestores da instituição, o presidente, assim como a ministra e pré-candidata petista, Dilma Rousseff, descreveu o BB como elemento central da estratégia que protegeu o País da crise internacional. E chegou a dar "graças a Deus" pelo fato de a instituição permanecer até hoje sob controle estatal.

Ao relembrar os tempos de líder sindical, Lula comentou que costumava ver estampada nas manchetes dos jornais informações sobre o déficit nas contas do BB. "Essas manchetes cheiravam a gosto de privatização. Nada melhor do que mostrar que um banco é deficitário para você, então, justificar uma privatização", disse Lula, atrapalhando-se no uso das expressões. "Graças a Deus, o Banco do Brasil não foi privatizado."

A fala foi parte de um discurso recheado de afagos ao banco e de argumentos em defesa do Estado forte. O tom estatizante vem ganhando espaço na retórica do presidente nas últimas semanas, em meio aos preparativos para a corrida presidencial deste ano.

Na mesma linha, Lula saiu em defesa da estratégia aplicada pelo governo desde o fim de 2008 para manter a oferta de crédito no País. Disse que o plano devolveu ao BB o status de campeão de rentabilidade. "Nós provamos que o Estado não é ineficaz como alguns quiseram fazer crer nas últimas três décadas. Provamos que o Estado não precisa se meter a ser um gerente, a ser um empresário. O Estado tem de ser o grande indutor das coisas."

Dilma, que acompanhou Lula na cerimônia, preferiu se ater ao discurso escrito por seus assessores. Ainda assim, também saiu em defesa do Estado forte, aproveitando para alfinetar a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. "Nas crises dos anos 90, como vocês se recordam, nós também tivemos problemas graves. Quando a economia fraquejava naquele momento, a primeira providência do governo brasileiro era cortar o investimento público, fazer subir as taxas de juros, fazer subir as alíquotas dos impostos federais, engordava-se a carga tributária, esmagava-se o Produto Interno Bruto e esmagava-se o emprego", afirmou a ministra-chefe da Casa Civil.

Em outra alfinetada na gestão tucana, Lula disse que foi preciso um "socialista" chegar à Presidência para que fossem valorizados os preceitos básicos de um sistema capitalista. "Precisou ganhar a eleição neste país um metalúrgico, que não é economista, que não é cientista político, que passou a vida inteira acreditando no socialismo, para dizer que não é possível um país capitalista sem capital, sem financiamento e sem crédito."

Além disso, o presidente viu a chance de sair em defesa dos altos salários no setor público. "Quando estão do nosso lado são marajás, ganham demais, não trabalham. Quando estão do lado de lá, são experts."

Em mais de uma ocasião, Lula arrancou risos da plateia, como no momento em que comentou o apoio do governo à aquisição de uma fatia no Banco Votorantim. Disse ter ouvido do comando do Banco do Brasil que faltava à instituição "expertise" na venda de carros usados. "Se para formar um diretor eu levo 30 anos, para formar um cara com expertise leva mais 30 anos. Aí a crise levava de rodo até um Obama, quanto mais o Lulinha aqui", brincou, em referência ao colega americano Barack Obama.

Entre mais uma brincadeira e outra, Lula chegou a dizer que nunca soube sequer o significado de "default". "Até hoje não sei o que é o default. Mas eu achava tão bonito as pessoas falando default que eu falava default." Ou então avisou que já foi "muito puxa-saco" do BB. "Nunca recebi nenhuma contribuição na minha conta bancária por causa disso", emendou.

Fonte: O Estado de São Paulo