Bancos internacionais reclamam que poderão enfrentar mais dificuldades e mais custos para refinanciar US$ 7,6 trilhões de seus bônus vencendo entre agora e 2015, por causa da reforma do sistema financeiro em elaboração pelas autoridades de regulação.

O avanço na reforma para reduzir a possibilidade e severidade de futuras crises financeiras continuará na ordem do dia dos principais bancos centrais do mundo, na reunião periódica no Banco Internacional de Compensações (BIS), na Basileia, no domingo e segunda-feira.

Para o Instituto Internacional de Finanças (IIF), que reúne as principais instituições financeiras do mundo, uma variedade de iniciativas – para aumentar as exigências de capital e liquidez, nível de alavancagem, taxa sobre bônus de bancos, taxação global, proibição de certas operações bancárias etc- aumentou as incertezas sobre o processo de reforma e seus resultados.

O IIF reclama que a falta de coordenação entre os principais governos no anúncio de iniciativas não assegura as mesmas condições de concorrência e pode causar "fragmentação financeira". E avalia que o impacto da reforma pode ser "significativo e resultar em algumas consequências não intencionais"’ para os bancos e a economia.

Exemplifica que, enquanto os reguladores encorajam os bancos a aumentar o capital próprio, outras propostas "podem suprimir a rentabilidade dos bancos no futuro", tornando assim "mais difícil e custoso levantar recursos", ainda mais quando tem vários trilhões de dólares para rolar nos próximos anos. Um dos alvos dos bancos é o imposto anunciado pelo governo dos Estados Unidos, de cobrar taxa de 15 pontos-base sobre as obrigações de dívida que não depósitos segurados.

A banca aponta a incerteza regulatória como um "grande obstáculo" para os mercados de securitização, que têm um papel importante no crédito especialmente nos Estados Unidos. Em 2007, do estoque de US$ 24 trilhões de créditos no mercado americano, os empréstimos de securitização representaram 41%. Com a crise, essas operações declinaram fortemente.

As lamentações dos bancos ocorrem num contexto de quase revolta em setores das sociedades com a repetição de práticas que causaram a pior crise financeira e econômica dos últimos tempos. Para cobrir as perdas de US$ 1,2 trilhão sofridas pelos bancos, os governos tiveram que injetar US$ 484,4 bilhões nas instituições (39,5% do total).

Para o BIS, as queixas dos bancos não refletem reações dos mercados, por exemplo, as novas informações sobre a regulação pós-crise já anunciada. Em dezembro, o Comitê de Basileia de Supervisão Bancária publicou um conjunto de propostas que resultarão na necessidade de mais capital e menos alavancagem pelos bancos. Mas o impacto imediato sobre os preços das ações dos bancos e os spreads de crédito foram leves.

Os bancos europeus, os mais afetados por limites na alavancagem, tiveram uma pequena desvalorização de suas cotações. Nos EUA, com os bancos já submetidos aos limites de alavancagem, não houve efeitos.

Além disso, o presidente do Conselho de Estabilidade Financeira, o italiano Mario Draghi, reiterou que somente no fim de 2012 é que novas exigências entrarão em vigor, para não causar problemas na retomada do "fluxo adequado" de fundos para a economia.

Segundo Draghi, as autoridades continuam considerando as exigências mais duras de capital e liquidez, intensificação da supervisão, procedimentos harmonizados para gestão de crises, reduzir a complexidade de grandes bancos internacionais. Por exemplo, a obrigação de operações em cada país via uma subsidiária, de forma que esta tenha autonomia substancial.

Também continua em discussão a separação entre o banco tradicional e os bancos de investimentos, para limitar os riscos tomados pelas instituições.

Por sua vez, o Fundo Monetário Internacional examina uma ideia de taxação global sobre os bancos. O dinheiro seria usado para devolver ao governo o que foi usado em socorros aos bancos. Em todo caso, Herve Hannoun, vice-diretor do BIS, alertou que o setor bancário "não deve ter ilusões" de que uma taxa poderia substituir a exigência de mais capital.

Fonte: Valor Econômico /  Assis Moreira, de Genebra