Já não se fazem mais apertos monetários como antigamente. Às vésperas do início de mais um ciclo de alta do juro básico pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central – o quarto do governo Lula -, a taxa real projetada para 12 meses está em 6%.

Mesmo antes da elevação da Selic, congelada em 8,75% desde julho do ano passado, já é o maior juro real do mundo. De acordo com ranking da consultoria UP Trend, está à frente dos pagos pela Indonésia, de 3,6%, e pela China, de 3,3%.

Mesmo assim, de acordo com estudos de bancos e consultorias, ainda é insuficiente para debelar as pressões inflacionárias. Para estas instituições, o juro real de equilíbrio (o que consegue emparelhar a velocidade de crescimento da economia com o seu potencial não -inflacionário de expansão) deve ser de 7% a 8%. Não chegará lá.

As indicações são de que o BC pode elevar gradualmente a Selic dos atuais 8,75% para 11,25% até o fim do ano. Comparativamente à meta de inflação de 4,5%, isso dá um juro real de 6,46%. Trata-se de taxa que faz ter saudade do recorde de baixa do juro real, os 4,62% do dia 17 de julho de 2009. Mas está bem distante das taxas "históricas". No quadriênio de 95 a 98, a Selic real média foi de 22%. E entre 99 e 2007, de 10%.

O mercado não tem certeza se o início da série de altas da Selic ocorrerá agora em março – o próximo Copom está marcado para o dia 17 – ou só em abril. Mas este quarto e último aperto do governo Lula pode até ser menor que os dois anteriores. O primeiro foi o menos intenso, de apenas um ponto, com a Selic subindo de 25,5% para 26,5%. Foi desfechado logo no começo da era Lula para sufocar resquício de desconfiança externa.

O segundo, entre 2004 e 2005, já foi de 3,75 pontos, com a taxa avançando de 16% para 19,75%. E o terceiro, em 2008, com a Selic subindo de 11,25% para 13,75%, somou 2,5 pontos. Note-se que nominalmente a Selic sempre está mais baixa no início de cada novo ciclo de aperto. O de 2010 pode ser também de 2,5 pontos se a Selic chegar a 11,25%. Há um consenso no mercado de que poderia ser bem menos. Embora o Brasil exiba hoje notável capacidade de crescimento autossustentável, ainda não conseguiu acabar com todas as heranças inflacionárias.

Após a consolidação da estabilidade de preços e o abandono da âncora cambial, esperava-se que a Selic pudesse ser reduzida de forma a aproximar-se das taxas praticadas no resto do mundo. "Isso não aconteceu, a despeito da expressiva inflexão da política fiscal, com o cumprimento de metas de superávit primário de cerca de 4% do PIB, verificada a partir de 1999", diz o economista André Modenesi, pesquisador do IPEA. No seu entender, a política monetária brasileira ainda constitui uma "anormalidade".

Apesar de o país praticar uma taxa de juros superior àquelas empregadas por seus pares latino-americanos, a inflação no Brasil tem permanecido em patamares relativamente elevados.

O debate sobre as causas da manutenção dos juros em patamares elevados é inesgotável. E irreconciliável, dependendo da corrente de pensamento que discuta o tema. Modenesi, economista da ala desenvolvimentista, levanta cinco explicações para a ocorrência desse fenômeno: 1) a reduzida eficácia da política monetária (há graves problemas no mecanismo de transmissão da política monetária); 2) a convenção a favor do conservadorismo na política monetária; 3) a chamada hipótese Bresser-Nakano; 4) a fragilidade das contas públicas inibe o pagamento de juros baixos pois os títulos federais não teriam demanda; e 5) a incerteza jurisdicional decorrente da existência de um viés anticredor.

Fonte: Valor Econômico / Luiz Sérgio Guimarães, de São Paulo