Crédito: Jailton Garcia/Rede de Comunicação dos Bancários
Jailton Garcia/Rede de Comunicação dos Bancários
Pesquisa mostra que bancos usam demissões para diminuir salários

Apesar de gerarem 6.851 novos empregos, os bancos desligaram 8.947 trabalhadores no primeiro trimestre de 2011, mantendo a alta rotatividade de mão-de-obra que o sistema financeiro utiliza como estratégia para a redução dos salários. As admissões (15.798) são feitas com remuneração 46% inferior aos bancários demitidos. Os dados foram apresentados pelo Dieese, na mesa de Emprego e Remuneração, no segundo dia da 13ª Conferência Nacional dos Bancários, que acontece em São Paulo.

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 Essa estratégia de redução de custos é reforçada com a expansão dos correspondentes bancários, cujos trabalhadores ganham em média 25% do valor da remuneração dos trabalhadores do setor financeiro, com a adicional de não terem os demais direitos da categoria. Enquanto o bancário custa em média R$ 4.435,00 aos bancos (com um piso médio, considerando a remuneração variável, cerca de R$ 2.300,00), o comerciário recebe R$ 965,00.

Para o economista Miguel Huertas, da subseção do Dieese na Contraf-CUT, a manobra é preocupante. "A redução de custo, que anteriormente era um papel atribuído à tecnologia, foi transferido atualmente com a expansão dos correspondentes bancários. Os banqueiros usam o comerciário para vender produto bancário porque o custo comercial e salarial é bem inferior ao do bancário", avalia o economista.

Segundo ele, a própria existência da categoria bancária está em jogo. "Porque há o risco de ele ser reduzido de novo, agora não mais por conta do avanço tecnológico, mas pelo barateamento da mão de obra".

Novas fontes de lucro

O estudo do Dieese mostra que houve mudança no perfil do rendimento bancário. De acordo com Huertas, se antes os bancos ganhavam com a alta inflação, com o controle das taxas os banqueiros tiveram que criar novas fontes de lucro. Hoje elas estão concentradas na venda de produtos e nas tarifas bancárias. "Ou seja, retira dinheiro da sociedade para os bancos", afirma o economista.

Número de mais velhos aumenta

Os dados mostram aumento do número de bancários entre as faixas etárias mais elevadas. Em 1995, havia poucos bancários com mais de 50 anos. A taxa se eleva de 2,6% em 1995 para 12,7% em 2010. A faixa entre 40 e 49 anos também foi elevada, de 22,4% em 1995 para 26,5% em 2010. Por outro lado, há uma queda na participação entre os mais jovens, de 30 e 39 anos, passou de 43,4% em 1995 para 29,1% em 2010.

Apesar do aumento etário, a maioria, 70% dos novos contratados, é jovem entre 18 e 24 anos.

Aumenta grau de escolaridade

O número de bancários com nível superior apresentou grande aumento. A porcentagem passou de 20,78% em 1995 para 68,57% em 2010.

O trabalhador do sistema financeiro também está ficando cada vez menos nas empresas. Em 1995, 45% dos bancários permaneciam dez anos ou mais no banco. Atualmente, este contingente reduziu para 26%. Os trabalhadores entre cinco a dez anos eram de 28%. Atualmente são 14%. "Em razão da rotatividade, esta é uma categoria que tem ficado menos tempo no emprego", avalia Huertas.

Jornada desigual

A jornada de trabalho acentua a divisão de condições de trabalho entre trabalhadores dos correspondentes e os bancários. Dos bancários, 50% possuem jornada de 40 horas, enquanto a outra metade da categoria trabalha 30 horas semanais. Já a jornada dos correspondentes se mostra bem superior ao dos bancários. No comércio, 95% têm jornada de 44 horas. "Sem contar que a maioria excede o período contratual", avalia Huertas.

Sistema financeiro contribui com desigualdade

O sistema de contas do IBGE de 2008 mostra que a partir dos anos 2000 ocorreu um aumento na remuneração do capital em detrimento da remuneração do trabalho. Segundo os dados, houve uma queda na participação dos salários no valor adicionado do sistema financeiro na forma como a riqueza é distribuída entre capital e trabalho.

De acordo com o levantamento, o total de riqueza no sistema financeiro ficou dividido em 67% para o capital e 31% para os trabalhadores. Por outro lado, na economia total, os números se mantiveram mais páreos, com 40,5% ao capital e 38% aos trabalhadores.

Segundo os dados do Dieese, mesmo se tratando de um setor responsável por 10% da economia do país, o sistema financeiro apresentou uma maior desigualdade na distribuição da riqueza, se comparado com a economia total. "É preciso melhorar a distribuição de renda existente no sistema financeiro para que o crescimento econômico seja mais igualitário", defende Miguel.

Mulheres continuam ganhando menos

O levantamento mostrou aumento na participação das mulheres no sistema bancário. Em 1995 era de 45% e em 49%. Porém, a diferença da remuneração média entre homens e mulheres está ainda maior. Em 1995 a diferença era de 21%, enquanto que em 2010, a porcentagem subiu para 24%.

"A diferença de salário médio entre homens e mulheres foi ampliada. Caminhamos para trás do ponto de vista da remuneração", conclui o economista.

 
Fonte:  Rede de Comunicação dos Bancários / Júnior Barreto e Renata Bessi