Os Estados socorreram o sistema financeiro. Agora querem que os trabalhadores socorram o Estado. Quem vai nos socorrer?

Esta foi a essência do questionamento que fiz no último final de semana na reunião dos ministros do Trabalho e Emprego do G-20, em Paris.

Como representante da CUT no encontro, minha intervenção ocorreu logo depois de um grande empresário alemão ter sugerido que, para combater a crise internacional, é preciso fazer uso da surrada fórmula neoliberal de flexibilizar para diminuir os custos do trabalho. Em bom português: arrocho salarial, precarização e retirada de direitos seriam a salvação da lavoura. Ele não disse, obviamente, de quem, nem a que custo.

Argumentei que o estado – tanto nos Estados Unidos como na Europa – socorreu banqueiros utilizando recursos que poderiam estar sendo investidos na produção. Lembrei que, agora, o mesmo estado, para resolver o problema da ausência de dinheiro canalizado a rodo ao setor financeiro, está fazendo reformas trabalhistas que vão deixá-lo ainda mais fragilizado. Ou seja, vão combater o incêndio com gasolina.

O enxugamento do Estado, como tanto anseiam os neoliberais, tem representado um desastre político, econômico e social, que cobra seu preço com o vertiginoso crescimento da miséria e da violência. Reduzir o Estado significa diminuir a estrutura pública, permeável ao jogo democrático, e substituí-la pelos grandes monopólios privados, que passam a controlar ainda mais renda e poder.

Ao abrir mão do seu papel e deixar de ser indutor do desenvolvimento, o Estado, que é – ou deveria ser – público, passa a ser mero espectador da aplicação da lei da selva, regida pelo sistema financeiro. É isso, infelizmente, o que está ocorrendo. Contra isso, necessariamente, precisamos ampliar nossa mobilização.

É visível que o modelo social europeu está em perigo. Está sob ameaça e ataque de neoliberais com seu programa de arrocho fiscal, privatizações e desmantelamento dos serviços públicos. Diante do agravamento da crise, tentam colocar a conta dos especuladores nas costas dos trabalhadores.

Mais do que denunciarmos a irracionalidade da lógica do capital financeiro, levamos à reunião propostas dos trabalhadores para enfrentar e resolver o problema, para libertar nossos países e povos deste círculo vicioso. Nossa intervenção se pautou na defesa do diálogo social, de políticas de valorização do salário mínimo, de proteção social e dos direitos trabalhistas.

Dissemos em alto e bom som que os organismos internacionais como o FMI e o Banco Mundial e a OCDE estão unicamente preocupados com a manutenção do insustentável status quo, o que só aumenta a desconfiança em relação ao papel que tem desempenhado, cavando sempre mais fundo no problema, cada vez mais distantes da sua solução.

Afirmei que se os países emergentes estão saindo mais rapidamente da crise é por não estarem se submetendo à cartilha recessiva, não fazerem reformas que retiram direitos, por aumentarem salário, distribuírem renda, estimularem o crédito, resgatarem o protagonismo do estado.

No caso do Brasil, lembrei, foi ativando o mercado interno, valorizando o poder de compra e investindo pesado em políticas públicas, que incorporamos milhões de brasileiros à economia. Homens e mulheres, vale lembrar, que FHC e os tucanos, alcunharam de “inempregáveis”, seres humanos que foram anteriormente sentenciados à morte em vida.

Ressaltei que nos oito anos de governo Lula, o ganho real do salário mínimo foi superior a 54%, período em que foram gerados mais de 15 milhões de empregos formais. Contrariando as previsões dos conservadores e seus dogmas, as empresas cresceram em vez de falir, da mesma forma que o Estado viu fortalecidas as suas receitas. Neste ano, em nosso país, 84,4% das categorias conquistaram aumento real de salário.

Nenhum governo sério pode se submeter às soluções econômicas neoliberais, que apenas respondem ao imediatismo do fluxo de caixa dos especuladores, ao mesmo tempo em que transformam a questão social em caso de polícia, alastrando o desemprego e arrasando com os direitos. Falei que nos países amarrados a esta camisa-de-força, os ministros do trabalho se transformaram em ministros do desemprego e que isso estava provocando guerras sociais em todos os continentes.

Podem esperar dos trabalhadores tudo, menos que renunciem à luta por mais salário, mais emprego, mais direitos, mais justiça, mais igualdade, mais saúde e educação. Em nome da quinta maior central sindical do planeta e respaldado pela nossa Central Sindical Internacional (CSI), alertei que qualquer caminho que não leve em conta os interesses da classe trabalhadora, da grande maioria da nossa sociedade, inevitavelmente estará fadado a chegar a lugar nenhum.

Finalizo homenageando o grandioso acampamento nas imediações da Bolsa de Nova Iorque, que cobram freio à política de especulação, e citando a entrevista à BBC do especulador Alessio Rastani. “Sonho com a recessão para ganhar muito dinheiro. Porque as pessoas talvez não lembrem, mas a depressão dos anos 30 não foi somente a queda do mercado. Havia pessoas que estavam preparadas para ganhar dinheiro”, disse Rastani. Sem o menor traço de moral ou constrangimento, a confissão estampa o grau de degeneração a que chegaram os maestros do sistema. Que faliu. Basta enterrar.

Fonte: CUT NACIONAL