Além de provocar milhares de demissões, a política de rotatividade dos bancos privados é nociva para a renda dos bancários. A diferença entre a média dos salários de admitidos e desligados foi -38,39% no primeiro semestre deste ano, conforme a Pesquisa do Emprego Bancário, elaborada pelo Dieese e Contraf-CUT, com base nos dados do Caged do Ministério do Trabalho e Emprego. A remuneração média dos desligados foi de R$ 4.054,14, enquanto que a dos admitidos ficou em R$ 2.497,79.

"Essa enorme diferença nos salários entre admitidos e desligados é perversa para a categoria, pois piora a qualidade do emprego e da renda e só favorece os bancos, que reduzem os seus custos e turbinam ainda mais os seus lucros estrondosos, que superaram R$ 27,4 bilhões somente no primeiro semestre", afirma Carlos Cordeiro, presidente da Contraf-CUT e coordenador do Comando Nacional.

"Os bancos argumentam que existe rotatividade em todos os setores da economia, mas omitem o fato de que no setor financeiro ela é utilizada como uma forma de diminuir custos das empresas", salienta.

O dirigente sindical denuncia que esse índice de -38,39% é muito superior à média da economia nacional, que foi de -6,06% no primeiro semestre. "Isso representa mais de 30 pontos percentuais, revelando que os bancos andam na contramão da melhoria da renda dos trabalhadores", aponta.

Conforme a pesquisa, os bancos criaram 11.978 empregos no primeiro semestre de 2011. Eles fizeram 30.537 admissões e 18.559 desligamentos.

Diferença de salário entre admitidos e desligados

Brasil – Janeiro a Junho de 2011

Bancários

Admitidos

Desligados

Diferença da Rem. Média (%)

Rem. Média
(em R$)

Rem. Média
(em R$)

Total

2.497,79

4.054,14

-38,39%

Fonte: MTE/CAGED

 

Elaboração: DIEESE – REDE BANCÁRIOS

Diferença de salário entre admitidos e desligados

Brasil – Janeiro a Junho de 2011

Setor de Atividade Econômica, segundo IBGE

Admitidos

Desligados

Diferença da Rem. Média (%)

Rem. Média
(em R$)

Rem. Média
(em R$)

Extrativa mineral

1.588,86

1.485,30

6,97%

Indústria de transformação

929,50

1.012,10

-8,16%

Serviços indústria de utilidade pública

1.056,73

1.292,64

-18,25%

Construção civil

972,12

1.021,13

-4,80%

Comercio

787,53

841,01

-6,36%

Serviços

945,71

994,06

-4,86%

Administração pública

1.128,37

1.271,69

-11,27%

Agropecuária, extr. vegetal, caça e pesca

677,52

731,82

-7,42%

Total

895,47

953,20

-6,06%

Fonte: M.T.E/CAGED

 

 

 

Elaboração: Subseção DIEESE – CONTRAF/CUT

"Com a política de rotatividade, a ameaça de demissão paira sobre as cabeças dos bancários e serve como pressão para o cumprimento de metas abusivas e de combustível para o assédio moral. Precisamos de garantias que protejam o emprego dos bancários, como a ratificação a Convenção 158 da OIT que impede as dispensas imotivadas", sustenta Carlos Cordeiro.

O fim da rotatividade é uma das principais reivindicações da Campanha Nacional dos Bancários, como forma de travar as demissões e melhorar a renda e a qualidade do emprego nos bancos. "Além das questões econômicas, o emprego e as condições de saúde, segurança e trabalho são prioridades na mesa de negociações para resolver o impasse da greve", salienta.

A rotatividade é uma das maiores preocupações da categoria. Outra pesquisa nacional divulgada em junho pelo Dieese, feita a pedido da Contraf-CUT, mostra que 50% dos bancários indicaram a estabilidade como a principal prioridade de emprego. "Precisamos acabar com a rotatividade na categoria. Além da insegurança que ela traz para os trabalhadores, provoca achatamento salarial", frisa o dirigente sindical.

Rotatividade X aumento real

Entre 2004 e 2010, os bancários conquistaram 12,25% de aumento real no salário, mas a remuneração média, incluindo PLR e benefícios, cresceu apenas 3,66% no mesmo período. "Com a rotatividade, o banco pode substituir, por exemplo, um escriturário que ganha R$ 2 mil por outro que ganha R$ 1.300 e, assim, diminuir o gasto com a folha de pagamento da instituição", denuncia Carlos Cordeiro.

> Clique aqui para acessar o gráfico sobre evolução da remuneração média dos bancários

Limitando a rotatividade

Existem categorias que, com o objetivo de combater a precarização do emprego promovido pela rotatividade, já fecharam acordos coletivos com cláusulas que limitam o número de funcionários desligados.

Os trabalhadores da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), por exemplo, conseguiram a garantia no emprego a 98% de seu efetivo de pessoal. Para tal controle, a empresa tem o compromisso de fornecer mensalmente a relação de empregados demitidos.

Os eletricitários da CPFL asseguraram o índice de 2,5% para a rotatividade anual, sendo que todos os casos de rescisão de contrato de trabalho serão mensalmente informados ao sindicato que representa a categoria.

Já os eletricitários da Celesc e da CEB obtiveram nos seus respectivos acordos coletivos a inclusão de cláusulas contra as demissões imotivadas, como prevê a Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil ainda não é signatário. O fim das demissões imotivadas também está na pauta de reivindicações da Campanha Nacional dos Bancários.

Emprego decente

O Brasil assumiu, em 2003, junto à OIT o compromisso pela promoção do Trabalho Decente, termo instituído em 1999. O país lançou, em 2010, o Plano Nacional para colocar em prática tal objetivo.

"Queremos emprego decente para os bancários com o fim da rotatividade, remuneração satisfatória, sem discriminação de nenhum tipo, condições seguras e saudáveis de trabalho, fim das metas abusivas e aposentaria digna", conclui Carlos Cordeiro.

Fonte: Contraf-CUT