O Banco Central Europeu (BCE) manterá a taxa de juro em 0,50% ao ano e não anunciará outras medidas na reunião desta quinta-feira (6), mas deixará a porta aberta para novas ações, incluindo mais um corte de juro, uma taxa de depósitos negativa e alguma forma de incentivo ao crédito às pequenas e médias empresas. Essa é a opinião da maioria das 12 instituições financeiras estrangeiras consultadas pelo Valor : BNP Paribas, Bank of America Merrill Lynch, Bank of Ireland, Citi, Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, HSBC, J.P. Morgan, Jefferies, Morgan Stanley e UBS.

Entre elas, o banco Morgan Stanley é o único que espera que o BCE corte a taxa na reunião de amanhã, para 0,25%.

Em geral, os economistas das casas pesquisadas acreditam que o intervalo de pouco mais de um mês entre a última reunião e esta é muito curto para que o BCE veja necessidade de anunciar novas ações. O mais provável é que o banco central espere mais algum tempo, pelo menos até julho, para verificar que, sem novos estímulos, o crescimento não reagirá no segundo semestre como o esperado. Caso isso se confirme, a taxa de juro pode ser reduzida em 0,25 ponto percentual no terceiro trimestre.

Mesmo sem trazer novidades nesta semana, o presidente do BCE, Mario Draghi, deve manter o tom “dovish” no discurso e reafirmar que o banco central está “pronto para agir” e considerando todas as opções disponíveis com a “cabeça aberta”. Também é provável que ele reafirme que as condições monetárias da zona do euro são suficientemente acomodatícias para garantir uma recuperação da economia na segunda metade do ano.

Com a porta aberta para novos estímulos nos próximos meses, a sessão de perguntas e respostas conduzida após a conferência de Draghi deverá se concentrar nos instrumentos à disposição do comitê, sendo os mais prováveis uma taxa de depósitos negativa e um programa de incentivo ao crédito às pequenas e médias empresas, além de, claro, uma nova redução do juro.

A maioria das casas consultadas não descarta a possibilidade de o BCE realizar qualquer uma dessas opções. Há tempos que o presidente vem sinalizando que o comitê está discutindo os prós e contras de uma taxa de depósitos negativa, o que significa que as instituições financeiras teriam que pagar para deixar seu dinheiro depositado no banco central – um incentivo contra os depósitos e a favor do crédito.

Para o Deutsche Bank, uma taxa de depósitos negativa é mais provável do que a maioria do mercado acredita. Segundo os economistas do banco, há vários argumentos a favor dessa medida, sendo o principal deles o fato de o BCE preferir um afrouxamento monetário via taxa de juros que por meio de instrumentos não convencionais. Contudo, o banco reconhece que o comitê parece estar dividido quanto ao assunto, o que impede que essa ação seja realizada por ora.

Outra opção que tem sido extensamente discutida nos últimos dias é um programa de incentivo ao crédito às pequenas e médias empresas, nos moldes do “Funding for Lending Scheme”, do Banco da Inglaterra. É verdade que esse segmento enfrenta dificuldades de financiamento há vários meses, como evidenciado pelas pesquisas de empréstimos bancários do BCE e pelos discursos de Draghi. Contudo, a maioria das instituições consultadas acredita que ainda é cedo para que uma medida nessa direção seja anunciada.

Na última reunião, em maio, Draghi disse que o BCE estava iniciando os estudos sobre o assunto e que começaria a consultar outras instituições, mas que o tema era complexo e exigia uma análise profunda. Para os analistas, o intervalo de pouco mais de um mês desde essas afirmações não é suficiente para que o banco central tenha elaborado um programa de tal naipe.

Autoridades ouvidas pelo “Financial Times” afirmaram que, se o BCE optar por algo nesse caminho, não será com a intensidade com que alguns agentes do mercado chegaram a contar. “Essa [possibilidade de ajuda] não é a nova bazuca”, disse uma das fontes ao jornal.

Na opinião dos economistas do J.P. Morgan, o tratamento dado pelo BCE ao problema das pequenas e médias empresas é decepcionante, já que Draghi vem expressando preocupação com o segmento há mais de um ano. Para o banco, o BCE já poderia ter anunciado medidas para ajudar esse setor, mas que, dado o tom do último discurso, isso provavelmente só será feito caso as condições econômicas se deteriorem significativamente – o que não é o cenário central do J.P. Morgan.

Para esta semana, duas outras ações foram aventadas, minoritariamente, por algumas das casas consultadas: a instituição de um “forward guidance” – o uso de parâmetros temporais, qualitativos ou quantitativos para orientar a política monetária – e um afrouxamento nas condições exigidas nos colaterais. O Morgan Stanley e o BNP Paribas defendem a primeira opção, afirmando que a partir desta reunião o BCE pode começar a reforçar a orientação da política, algo que vem fazendo sutilmente por frases como “o BCE manterá a política monetária acomodatícia pelo tempo que for necessário”.

Já o Citi acredita que o BCE pode anunciar um afrouxamento nas regras dos colaterais, reduzindo, por exemplo, o “haircut” sobre os títulos lastreados em ativos (ABS).

Há, contudo, instituições que acreditam que o BCE não anunciará novas medidas no futuro próximo. Para o HSBC, por exemplo, se as condições econômicas atuais se mantiverem, a taxa de juro ficará em 0,50% até o fim do ano. O Goldman Sachs, por sua vez, acredita que a partir de agora a atividade na zona do euro vai se estabilizar e, com isso, a pressão por novas ações sobre o BCE vai ceder.

Na quinta-feira, serão divulgadas, além da decisão do BCE, as novas projeções do comitê. A expectativa geral dos analistas consultados é que as perspectivas para o crescimento e para a inflação sejam levemente revisadas para baixo, mas que, ainda assim, Draghi reafirme que a recuperação virá no segundo semestre. Na teoria, crescimento menor e preços em baixa dão espaço para novos afrouxamentos monetários. Se a teoria será colocada em prática, só esperando para ver.

Fonte: Valor Econômico / Aline Oyamada