Crédito: CUT
CUTO secretário de Relações Internacionais da CUT, João Felício, alertou para alguns problemas na atuação de parte dos movimentos sociais e sindicais no mundo. Na manhã desta quinta-feira (23), no Fórum Social Temático 2014, em Porto Alegre, o dirigente participou da mesa de convergência “Crise Capitalista, não vamos pagar essa conta”.

Aprofundar discussões e ações

Para João Felício, há uma tendência mundial em privilegiar demandas pragmáticas durante as lutas da sociedade civil. Como exemplo, o sindicalista citou as mobilizações por aumentos salariais, com repercussão e adesão mais fortes que as mobilizações contra temas estruturais como a questão de classes e a crise do Capitalismo.

“A CUT vê esse problema em parte do movimento social mundial, não apenas na América. Há os que querem apenas direitos trabalhistas, por exemplo, se esquecendo da contradição de classes e da estrutura da sociedade em que vivemos”, afirma o secretário. “Muitos sindicatos perderam sua essência questionadora e precisam recuperá-la”.

Para o dirigente da CUT, a função dos sindicatos é maior do que apenas garantir direitos de categorias específicas. É necessário lutar por pautas que beneficiem a sociedade como um todo, defendendo um modelo de vida inclusivo e que combata a desigualdade estrutural da sociedade capitalista. “É preciso também questionar profundamente a estrutura capitalista e inserir a imensa massa de trabalhadores mundiais em uma luta de enfrentamento à ela”, lembra o dirigente, ressaltando a necessidade de consciência de classe.

O movimento sindical mundial, segundo João Felício, não pode se eximir de parte da culpa pela dificuldade das mobilizações com pautas mais aprofundadas. “O movimento sindical deixa de questionar um pouco quando consegue direitos, e pode se acomodar muito facilmente. Como exemplo, temos o movimento sindical europeu, que se acomodou após a conquista de muitos direitos nos últimos 50 anos. É preciso combater essa lógica”, destaca.

Uma consequência desta acomodação, além do abrandamento de pautas que seriam necessárias a toda a sociedade internacional, é a diminuição da credibilidade e do sentimento de representatividade. Os movimentos sindicais, segundo João Felício, representam apenas 15% dos trabalhadores formais no mundo. 

“Um total de 85% dos milhões de trabalhadores e trabalhadoras ainda está fora da organização sindical no mundo, em parte por não acreditar na representação dos movimentos”, critica João. Citando desafios, o secretário destaca a inserção de jovens em movimentos sociais e sindicais e o diálogo com os não-sindicalizados.

“Estamos em uma crise nas organizações sociais e partidárias. A população não acredita nestas representações, com maior destaque em relação aos jovens”. Para o dirigente, há risco de, nas próximas gerações, o sentimento de representatividade e a própria representatividade em si serem ainda menores do que as atuais.

Passar da reflexão à prática

Em uma realidade de disputa constante entre projetos antagônicos, é importante, para o secretário de Relações Internacionais da CUT, compreender as forças políticas atuantes no cenário nacional e internacional para estabelecer ações, prioridades e alianças. E o Fórum Social Temático é um espaço que não deve se situar apenas nos debates teóricos, mas na discussão de ações práticas que orientem estas prioridades.

João Felício não descarta a importância da reflexão sobre os temas aos quais a sociedade é sensível, mas destaca ser preciso mais empenho em materializar discussões teóricas. Uma solução para o problema seria a criação de pautas-consensos entre as centrais sindicais e movimentos sociais, o que facilitaria a unidade, a luta e as conquistas. 

“A CUT não quer apenas reflexão. Estamos no tempo de agir. Nós temos como estabelecer consenso de pautas entre movimentos e lutarmos por elas. O momento em que vivemos, se é de reflexão, é de reflexão do nosso próprio papel enquanto movimento social”, afirma.

“Precisamos fazer menos eventos destinados apenas à reflexão e mais ações efetivas para atingirmos nossos objetivos. Precisamos nos unir e parar de batermos uns nos outros. Só unidos conseguiremos avançar”, conclui.


Fonte: Henri Chevalier – CUT Nacional