terça-feira, setembro 18, 2018
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Brasil de Fato repercute condenação do HSBC por espionagem de funcionários

Uma empresa decide registrar a rotina e vida pessoal de trabalhadores. Monta dossiês, com detalhes sobre horário de saída e volta para casa, local de destino, meio de transporte utilizado, hábitos de consumo e informações sobre cônjuges e filhos. Parece uma situação típica da ditadura civil-militar (1964-1985), mas isso ocorreu entre os anos de 1999 e 2003. E a empresa em questão é o banco inglês HSBC.

As violações em série cometidas pelo banco – que no primeiro semestre de 2013 lucrou US$ 153 milhões no Brasil – foram parar nos tribunais. No início de fevereiro, o HSBC foi condenado a pagar indenização de R$ 67,5 milhões por danos morais coletivos. A sentença decorre de ação civil pública ajuizada a pedido de entidades representativas dos trabalhadores do setor.

Em entrevista à Radioagência BdF, uma das funcionárias do HSBC espionada pela empresa confirma que foi alvo de investigações particulares. O processo tramita em Segredo de Justiça, com o objetivo de preservar os dados pessoais dos trabalhadores contidos nos autos. Por isso, a trabalhadora é aqui identificada como Ana Maria.

A bancária conta que as investigações traziam detalhes da vida pessoal e que o dossiê feito pela empresa continha fotos que confirmam que os investigadores a seguiram.

“Tinha nome, tinha endereço, tinha telefone, tinha tudo. Mas eles me fotografaram no mercado”.

Através da investigação da rotina de seus trabalhadores, o banco pretendia verificar se algum empregado afastado por doença recebia benefício previdenciário indevidamente. Ou seja, se estivesse apto para o trabalho ou realizando outras atividades remuneradas.

Ana Maria relata que quando sofreu a espionagem estava afastada do trabalho no banco por ter desenvolvido a Lesão por Esforço Repetitivo (LER).

“Como que se você tivesse LER não pudesse fazer mais nada na vida, fosse uma lesada, entende? Que você não tem que continuar tua vida, que você tem que ir no mercado, fazer compras. Com dor ou sem dor você tem que continuar a viver sua vida, não é verdade?”

Documentos levantados pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) comprovaram que o banco contratou a empresa Centro de Inteligência Empresarial (CIE) para realizar investigações privadas.

O secretário de Organização da Confederação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Miguel Pereira, destaca a gravidade dessas investigações, pois viola a intimidade e a vida privada dos trabalhadores.

“Ela fiscalizava as pessoas do ponto de vista da relação conjugal, que tipo trabalho o marido ou a esposa tinha, que tipo de relação social essa pessoa continua mantendo, se ia a festa, se ia a bar, se ia a feira, o que consumia.”

Pereira afirma ainda que em alguns casos o investigador particular se passou por outra pessoa e entrou nas residências dos trabalhadores.

“Inclusive, esses espiões se passavam por entrevistadores de empresas de cosmético, entrevistadores de empresa de telefonia para ter acesso ao ambiente domiciliar dessas pessoas.”

A CIE investigou, a pedido do HSBC, 152 pessoas de diversos estados do Brasil. Para cada funcionário, era preparado um dossiê correspondente. Segundo Miguel, além das informações básicas pessoais, a documentação também incluía consultas de antecedentes criminais, restrições creditícias, ajuizamento de ações trabalhistas e participação em sociedade comercial.

“Chegando a ter registros nesses dossiês de que vasculharam lixo dessas residências para ver se consumia bebida alcoólica, que tipo de medicação tomava. Então, tem várias fotos e varias descrições nesses dossiês relatando toda a rotina de vida pessoal, particular, desses trabalhadores.”

Na apuração do caso o MPT ouviu o HSBC, que confirmou a contratação da CIE para investigar a vida e a rotina dos empregados que se encontravam afastados em razão de doença ocupacional. Para Ana Maria, a desconfiança do banco é incabível e injustificável, já que para a concessão do beneficio previdenciário o trabalhador já passou pela perícia médica.

“Uma vez que eu tinha laudos médicos, que eu tinha exames, comprovando que eu tinha a doença, passei por cirurgia nos braços. Eu fiz quatro cirurgias. E o banco me mandava na época, inclusive, para médicos que ele conhecia, que ele direcionava. E esse médico pedia exames também, os mesmos que eu já tinha, e dava o mesmo resultado”.

O drama vivido pela bancária Ana Maria reflete uma situação comum vivenciada por trabalhadores do setor. Em 2012, segundo dados dos INSS, 21.144 bancários foram afastados do trabalho por adoecimento, dos quais 25,7% com estresse, depressão, síndrome de pânico e transtornos mentais relacionados diretamente ao trabalho. Outros 27% se afastaram em razão de lesões por esforços repetitivos (LER/Dort).

Radioagência BdF
Daniele Silveira