Em um encontro de quase quatro horas na segunda-feira (24), o primeiro que reuniu os principais banqueiros do país desde o embate sobre o corte nos juros bancários em abril de 2012, a presidente Dilma Rousseff mais ouviu do que falou. Ela manifestou interesse em saber o que poderia ser feito para diminuir o mau humor dos investidores. Dos banqueiros, recebeu a sugestão de que tenha comprometimento na área fiscal, inclusive com uma maior transparência das informações.

Um par de horas antes da divulgação do rebaixamento da classificação de risco do Brasil pela Standard & Poor’s (S&P), decretado no início da noite de segunda-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já havia sido informado. Foi ele que deu a notícia aos dirigentes dos bancos e à presidente da República.

O ministro falou também da importância da participação de bancos no financiamento de R$ 8 bilhões ao setor elétrico, adiantando que será um crédito a juros de mercado.

Os executivos encontraram Dilma mais aberta a ouvir o que eles tinham a dizer do que em reuniões anteriores, o que para muitos foi interpretado como uma mudança de postura da presidente. “Ela mais escutou do que falou”, disse um banqueiro que participou da conversa.

O encontro estava sendo articulado há algum tempo, ainda quando a Casa Civil estava sob o comando da ministra Gleisi Hoffmann. Quando receberam o convite para a conversa no palácio do Planalto, na semana passada, nenhuma pauta foi antecipada, o que causou certo estranhamento entre os banqueiros. À espera da presidente em uma ante-sala do Palácio do Planalto, se perguntavam qual seria o tema daquela tarde.

Depois de recepcionados, Dilma fez uma breve introdução na qual deixou claro que gostaria de ouvir a opinião dos interlocutores sobre o governo e o momento que o Brasil atravessa. Dilma abriu espaço para que cada um dos onze banqueiros e representantes de instituições financeiras falassem.

Ela queria entender, por exemplo, o que deveria ser feito para afastar o mau-humor dos investidores em relação ao país. Os comentários dos banqueiros foram anotados pela presidente. Logo em seguida, abriu-se uma sessão de perguntas e respostas, numa conversa mais informal.

Mais aberta a ouvir o que o setor bancário tinha a dizer sobre a conjuntura – crescimento, perspectivas de expansão do crédito -, Dilma em nada se pareceu com a presidente de encontros anteriores. Segundo relatos de participantes, o estilo da reunião guardou semelhança com os que tiveram com o antecessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Desde 2012, uma série de conversas entre os banqueiros e a presidente foi marcada por um clima bastante tumultuado. Em 2012, por exemplo, a indústria foi pressionada a reduzir os spreads das operações de crédito, em um contencioso que abalou as relações do governo com a Febraban. O presidente da Federação Brasileira de Bancos, Murilo Portugal, estava no encontro de segunda-feira. No ano passado, diversas reuniões em torno do financiamento de projetos de infraestrutura também se mostraram infrutíferas.

Dois banqueiros presentes consideraram a conversa bastante positiva, justamente pela sinalização de que a presidente está mais aberta a ouvir o sistema financeiro.

Espaço dado, os executivos manifestaram a percepção de que é a área fiscal que mais tem preocupado os investidores. “É a falta de transparência que traz mais desconforto aos investidores, traz esse pessimismo exagerado. Na política monetária, a avaliação foi a de que o Brasil está indo bem”, disse um interlocutor.

A despeito do reconhecimento de que a disposição da presidente para ouvir é melhor do que nada, para representantes do setor faltou sinais mais efetivos de mudanças que possam melhorar o ambiente econômico. “Mas é inegável que a disposição para conversar é um sinal positivo”, comentou uma fonte do setor financeiro, lembrando que Dilma é a favorita nas eleições presidenciais.

Estiveram presentes ao encontro os banqueiros Aldemir Bendine (Banco do Brasil), Jorge Hereda (Caixa), Roberto Setubal (Itaú Unibanco), Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Jesús Zabalsa (Santander), André Brandão (HSBC), André Esteves (BTG Pactual), Hélio Magalhães (Citi) e Carlos Alberto Vieira (Safra). Representando associações de bancos, além de Portugal, foi Manoel Félix Cintra Neto, da ABBC (bancos médios). 


Fonte: Valor Econômico