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Os bancos continuam dando justificativas frágeis para explicar porque cobram os maiores spreads do mundo aqui no Brasil. Com a crise econômica mundial, a desculpa da vez é o risco de inadimplência, que, segundo a Febraban, já é responsável por 50% da composição do spread. Mas, comparando o percentual de devedores do Brasil e de outros países, a inadimplência não explica o tamanho dos juros.
Entre os países emergentes, o spread brasileiro equivale a cinco vezes e meia a média das demais nações, enquanto que o índice de inadimplência é praticamente o mesmo. Na comparação com os países desenvolvidos, o spread do Brasil é onze vezes maior e a taxa de inadimplência é duas vezes maior.
As instituições financeiras já tentaram explicar os valores do spread criticando a legislação. Os principais pontos levantados pelos bancos foram alterados, como a lei da falência e o recolhimento do compulsório, que foi reduzido. Mas nada de os spreads caírem. Depois, jogaram a culpa na taxa básica de juros. A Selic foi reduzida de 22% ao ano, em 2003, para 8,75% em julho. Mas o Brasil continua campeão nos spreads.
Para o presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Luiz Cláudio Marcolino, nada justifica o Brasil ter o maior spread bancário mundo. "Por isso a redução da taxa de juros cobrada pelos bancos é uma das bandeiras da campanha dos bancários. Taxas menores significam mais crédito para a economia e conseqüentemente geração de empregos. Um círculo virtuoso do qual os bancos insistem em não participar", comenta Marcolino, fazendo uma ressalva.
"Os bancos públicos reduziram suas taxas, aumentaram o crédito disponível e estão tendo os melhores resultados do setor no primeiro semestre deste ano", salienta.
Inadimplência x spreads
Segundo o Banco Central, a taxa de inadimplência geral do brasileiro terminou o ano passado em 4,4%. Praticamente o mesmo índice dos países emergentes: 4%, de acordo com o Instituto de Finanças Internacionais. Nos países desenvolvidos, a taxa média ficou em menos de 2% em 2008, a metade da brasileira.
A diferença dos spreads brasileiros para o resto do mundo, entretanto, não guarda relação com a inadimplência. De acordo com o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o spread no Brasil é o maior do mundo e equivale a 11 vezes o dos países desenvolvidos.
Na média do ano passado, isso significa 34,88 pontos percentuais ante 3,16 pontos das nações centrais. A média simples da taxa das 62 nações em desenvolvimento que integram o relatório do Iedi ficou em 6,55 pontos percentuais no ano passado, valor 5,5 vezes menor que o spread no Brasil.
Volume do crédito
Além de cobrar os juros e os spreads mais caros do mundo, os bancos emprestaram menos dinheiro nos últimos meses. No primeiro semestre do ano, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander diminuíram suas carteiras de crédito em 1,7%. Enquanto isso, os empréstimos distribuídos pelo Banco do Brasil cresceram 7,6%.
A freada no crédito em meio a maior crise financeira mundial dos últimos 80 anos é mais uma mostra da irresponsabilidade social dos bancos, que virou mote da campanha nacional dos bancários deste ano, que cobra: "cadê a responsa, banqueiro?".
Fonte: Fábio Jammal Makhoul – Seeb São Paulo