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Fórum da Igualdade foi contraponto ao Forum da Liberdade
Os setores mais reacionários sempre analisam a questão como se andassem – e fossem andar para todo o sempre – do lado de dentro dos carrões importados, num desprezo total pelos outros e pelas leis de trânsito. Assim, para eles, o Estado está coagindo, usando o seu poder para "censurar" a "liberdade" da velocidade e estaria agredindo a igualdade ao dar preferência por quem está a pé.
Para serem consequentes com a irracionalidade desta sua "lógica", também deveriam questionar a existência dos semáforos e a punição, com multa e pontos na carteira, aos que desrespeitam uma lei básica que dá segurança a todos que andam pelas ruas.
A situação é clara e permite fazer uma analogia com a mesa de debates "O papel do Estado e os meios de comunicação", que encerrou nesta terça-feira, dia 12, o 1º Fórum da Igualdade, promovido pela CUT-RS e pela Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS).
O painel dialogou precisamente com a importância da existência de mecanismos para que a sociedade brasileira não se veja constantemente – e impunemente – atropelada pelos "donos" dos veículos de comunicação que, sem obedecer a regra alguma além das suas impublicáveis conveniências, transformaram o espaço público em fonte de enriquecimento privado. E privada.
DEMOCRATIZAR
"Aqueles que detêm concessões públicas e se comportam como donos do espectro rádio e televisivo tentam confundir liberdade de expressão com liberdade de imprensa e liberdade de imprensa com liberdade de empresa. Nossa compreensão é que necessitamos um novo marco regulatório para democratizar os meios de comunicação, para garantir a pluralidade e a diversidade, rompendo com a ditadura da mídia, de meia dúzia de famílias que pautam o que devemos ver e ouvir, numa afronta à lei e à própria Constituição", afirmou a secretária nacional de Comunicação da CUT, Rosane Bertotti, que coordenou a mesa de debates realizada na parte da tarde.
Participaram do painel o jornalista Altamiro Borges, do Centro de Estudos de Mídia Barão de Itararé; Bia Barbosa, do Coletivo Intervozes; Vera Spolidoro, da Secretaria de Comunicação e Inclusão Digital do governo do RS; Claudia Cardoso, diretora de Políticas Públicas da Secom-RS e José Nunes, presidente do Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre, que trouxeram importantes contribuições ao debate.
O desafio de trazer novos ares ao Estado no quesito comunicacional, advertiu o professor Pedrinho Guareschi, não será tarefa fácil, uma vez que 80% de tudo o que se divulga nos jornais e emissoras de rádio e televisão do estado vem de uma única fonte: a família Sirotski, que controla a retransmissora da Globo, o jornal Zero Hora e várias rádios. Guareschi participou pela manhã do painel "Democratização da democracia – existe liberdade sem igualdade?" ao lado de João Pedro Stédile e dos jornalistas Vito Gianotti e Verena Glass.
PROPRIEDADE CRUZADA
Apesar da legislação vedar – e vetar – a propriedade cruzada, alertou Altamiro Borges, da mesma forma como existe um monopólio no Estado, há um oligopólio no país. "Sete famílias detêm o controle das comunicações no Brasil", com tentáculos sobre veículos que tornam letra morta os preceitos constitucionais. "Já dizia o companheiro João Pedro Stédile, do MST, que pior do que o latifúndio da terra no Brasil é o latifúndio do ar, pois tem a capacidade de atuar na subjetividade, de mexer nos valores e deformar comportamentos", destacou.
Para Miro, o Estado tem um papel estratégico, "devendo agir para estimular a diversidade informativa, a capacidade de análise, de avaliação e crítica". Daí, ressaltou o coordenador do Barão de Itararé, a necessidade da constituição dos Conselhos Federal, Estaduais e Municipais de Comunicação, "para elaborar, fiscalizar e criar mecanismos a fim de que mais vozes se incorporem nesta batalha, que é de todos".
Vera Spolidoro lembrou do compromisso do governador Tarso Genro com a democratização da comunicação e sublinhou o papel da inclusão digital para o desenvolvimento local e regional. "Não é possível fazer inclusão digital sem a popularização da banda larga", declarou. Segundo Vera, as ações do governo gaúcho serão tomadas em sintonia com esta necessidade e a identidade com a plataforma reivindicada pelos movimentos sociais.
Na abertura do evento, Tarso já havia sublinhado esta identidade de propósitos e reiterado que vai caminhar junto com as organizações populares, pois esta é a sua compreensão da democracia: o compromisso de elevar a participação.
Da mesma forma, Claudia, voltou a enfatizar na tarde desta terça-feira que a diretoria de políticas públicas do governo do RS, coloca o tema da banda larga como prioridade, sem o que a maior parte da população teria negado o seu acesso à cidadania, já que continuaria presa à excludente lógica do mercado.
Com vistas à superação deste e de outros obstáculos, Bia Barbosa lembrou que há uma ação ajuizada pelo jurista Fábio Konder Comparato para que o Congresso Nacional responda por omissão, pela não implementação dos artigos 220, 221, 222 e 223 da Constituição Federal. O artigo 223, exemplificou, define a necessidade da complementaridade entre o setor público, comunitário e estatal, mas ainda é letra morta. Pior, denunciou, "já houve casos de parlamentarem que votaram na prorrogação das suas próprias concessões", o que demonstra o grau de impunidade reinante no que diz respeito à comunicação.
CONSELHO ESTADUAL DE COMUNICAÇÃO
Ao final do encontro, o presidente da CUT-RS, Celso Woyciechowski, leu um manifesto, em nome de todos os presentes, em defesa da instalação do Conselho Estadual de Comunicação, que aponte para a democratização do estado a partir da construção de um novo marco regulatório, que amplie a diversidade e a pluralidade cultural.
Celso reiterou que não há liberdade sem garantia de acesso à escola, à saúde e ao emprego e conclamou a todos e todas a continuarem mobilizados, fortalecendo as suas entidades, para que o Fórum da Igualdade ganhe cada vez mais projeção e se enraize como canal de diálogo e de construção de alternativas populares.
Fonte: Leonardo Severo – CUT