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O Fundo garantidor de crédito criado pelo governo para combater a inadimplência em empréstimos a pequenas e micro empresas tem sido alvo de resistência por parte dos bancos privados, ainda não convencidos de que devam fazer parte.
Uma justificativa possível é de que os bancos desejam operar com micro e pequenas empresas sem correr nenhum risco, como informa a matéria abaixo publicada no Jornal Valor Econômico. Acompanhe na íntegra.
Fundo garantidor sofre resistência
Valor Econômico
Alex Ribeiro, de Brasília
Os bancos privados estão resistindo a entrar no fundo garantidor de crédito criado pelo governo para cobrir a inadimplência em empréstimos a pequenas e micro empresas. Há insatisfação sobre o limite de 7% estabelecido para cobrir perdas, assim como a regra que determina que apenas 80% dos créditos bancários podem ser cobertos pelo fundo.
Ontem, o Fundo de Garantia de Operações (FGO), administrado pelo Banco do Brasil, começou a funcionar oficialmente. Foram fechadas as duas primeiras operações, durante um congresso de bares e restaurantes em Brasília. Todos os bancos podem ser cotistas do FGO, mas, por enquanto, o BB foi o único a aderir. O limite de 7%, conhecido como "stop loss", é um teto das perdas que devem ser assumidas pelo FGO. Ou seja: o FGO assume perdas se a inadimplência dos empréstimos for de até 7%. Se passar disso, o prejuízo fica com os bancos. Um limite superior a 7% significa que o Tesouro irá assumir mais riscos. O principal cotista do fundo é o governo, que anunciou um aporte de R$ 580 milhões. Os bancos que quiserem usar o fundo terão que fazer aportes equivalentes a 0,5% de suas carteiras. O BB já aprovou integralização de até R$ 100 milhões, que irá começar com aporte de R$ 15 milhões.
"Os bancos querem operar com micro e pequenas empresas sem correr nenhum risco", afirma uma fonte que participou da estruturação do fundo. "Querem que o Tesouro assuma tudo." A Caixa Econômica Federal, que ainda não integralizou suas cotas, afirma que pretende fazê-lo brevemente. "Já existe a decisão de participar do fundo", disse o vice-presidente de finanças da Caixa, Marcio Percival. Segundo ele, as coisas andaram mais rápidas na adesão de um fundo semelhante criado pelo BNDES, em que a Caixa deverá entrar com cerca de R$ 2,5 milhões, num primeiro momento. "No FGO, o valor será bem maior."
O economista-chefe da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Rubens Sardenberg, afirma que o desenho final do fundo não atende exatamente ao que esperavam os bancos. Mas, mesmo assim, ele acredita que haja adesões. "Cada banco irá fazer seus cálculos dos custos e benefícios", afirma ele.
Um dos problemas é que o BB, um concorrente, irá cuidar da administração do FGO. Por mais que se estabeleça uma muralha chinesa segregando os dados, argumenta, na essência os bancos terão que abrir dados estratégicos de sua clientela e um concorrente. Outro problema é que as cotas integralizadas por um banco podem ser usadas para cobrir prejuízos de outro banco. "Um banco, que conhece bem seus clientes e faz muito esforço para conter sua inadimplência, irá cobrir a inadimplência de outro." Os bancos defendiam que o FGO oferecesse garantia para outros fundos, cada um gerido por uma instituição financeira.
O vice-presidente de crédito, controladoria e risco global do BB, Ricardo Flores, calcula que a adesão ao fundo vai permitir queda de cerca de 30% nas taxas médias cobradas de micro e pequenas empresas, que passariam dos atuais 1,93% ao mês para 1,3% ao mês. Os empresários pagarão uma taxa anual de 0,2% para acessar o FGO. "Ampliamos, há alguns meses, os limites de 303 mil microempresários, e a oferta de linha será automática a toda a base de clientes", afirma. A expectativa é que, num prazo entre seis e oito meses, o FGO ofereça garantias de R$ 3 bilhões.
Fonte: Contraf-CUT, com Valor Econômico