Dezenas de milhares de pessoas participaram neste domingo (6) da passeata de abertura do Fórum Social Mundial, que coloriu com bandeiras de organizações dos cinco continentes as ruas de Dakar. Enfrentando a verticalidade do sol e a horizontalidade da poeira que castigaram a tarde na capital senegalesa, os manifestantes ergueram faixas e cartazes, bateram tambores e dançaram ritmos africanos contra a globalização neoliberal, o neocolonialismo e o imperialismo, defendendo uma nova ordem mundial em que impere a solidariedade, a paz e a justiça social.

Muitos habitantes se somaram à marcha, enquanto famílias inteiras observavam com olhos atentos – e a vigilância da polícia e do exército espreitava – a diversidade das reivindicações, que iam do local ao global. Nos escritos e nas palavras de ordem, um mundo inteiro desfilava: da defesa de água, da comida e do emprego como direitos humanos, até petições em favor da democracia na região, de solidariedade à luta dos povos do Egito e da Tunísia por sua libertação, de condenação ao apartheid de Israel na Palestina.

Na avaliação do secretário de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), João Antonio Felício, "a energia passada pelos manifestantes projeta um novo tempo para as forças democráticas e progressistas do mundo, expressando um aumento do nível de consciência e de interação entre os povos para romper com a irracionalidade do receituário neoliberal". "É simbólico que, após o Fórum de Nairóbi, no Quênia, voltemos à África para ganhar energia e reforçar nossos laços de compromisso pela superação da ditadura do sistema financeiro e das transnacionais.

O espírito do Fórum é de congraçamento e integração, não de exploração de países e povos; é de buscar a unidade na diversidade, não na imposição e nas guerras; de construir um modelo econômico onde caibam todos e todas, e em que, a partir do respeito às mais amplas liberdades, e por meio da participação social, o Estado tenha um papel protagonista na efetivação de políticas públicas que promovam o desenvolvimento com distribuição de renda e ampliação de direitos", apontou.

A presença de uma delegação expressiva de cutistas no Senegal, assinalou João Felício, "é também um reconhecimento do significado que tem o continente africano na nossa formação". "Seria importante que a Europa, que tanto lucrou com a superexploração da mão de obra escrava em suas colônias, voltasse seus olhos para o continente africano e adotasse um outro tipo de postura. Não podemos admitir que seus governos e empresas continuem reproduzindo práticas pouco condizentes com a moralidade e seus países continuem lucrando com a desgraça alheia, fomentando guerras e divisões, em meio à precariedade das condições de saúde, educação, saneamento, salário e emprego", acrescentou.

De acordo com João Felício, um dos objetivos da realização do Fórum no Senegal é precisamente ampliar os espaços de reflexão e ajudar a construir alternativas que levem em conta a soberania das nações africanas, fortaleçam a democracia no continente e impulsionem seus povos a seguir em frente, virando a página do atraso fomentado pela ingerência estrangeira e pela corrupção de elites que deram as costas a seus povos.

Superação

Em sua intervenção no palanque montado em frente à Universidade Cheick Anta Diop, o ministro chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, resgatou o compromisso do governo brasileiro com o Fórum, sublinhando que é hora de construirmos conjuntamente políticas econômicas e sociais entre iguais e "não entre dominadores e dominados". "Em vez de seguir a cartilha recessiva do FMI", destacou Gilberto Carvalho, "buscamos no Brasil a distribuição de renda, o financiamento da produção e apostamos no consumo do grande mercado interno como resposta à crise".

O ministro disse que sua presença vinha "num sentido inverso a de milhões de negros africanos que atravessaram o Atlântico como escravos nas Américas, no Brasil e em tantos outros países" e que tanto tiveram de lutar pela sua liberdade, para que hoje sejam reconhecidos e valorizados com políticas afirmativas. Criticando os países europeus por manterem políticas preconceituosas, Gilberto Carvalho apontou a relevância de políticas públicas para que o nosso país salde parte da dívida histórica com os afro-descentes e destacou o papel dos movimentos sociais para a construção de agendas positivas. Valorizando a parceria com os movimentos sociais, o ministro reiterou a visão do governo brasileiro da integração com o continente. "Venho, acima de tudo, estender a mão com o compromisso de intensificar as relações com as nações africanas e demais nações do Sul", frisou.

Anti-imperialismo

Presente ao ato, o presidente boliviano Evo Morales sublinhou o significado da luta dos povos, particularmente na América Latina, ter se desdobrado positivamente na eleição de governos à esquerda, que hoje se identificam – e comprometem – com a visão do Fórum Social Mundial, enfrentando a lógica do "deus mercado" e da oligarquia financeira internacional, defendendo seus patrimônios públicos e naturais.

Enaltecendo o esforço e a determinação de cada um dos presentes por afirmar a consigna de que um outro mundo é possível e necessário, Evo enfatizou que diante da falência da globalização neoliberal é hora de somar forças e avançar, potencializando a ação dos movimentos sociais. "Nossa luta é para salvar a Mãe Terra da devastação e da exploração, da política genocida do imperialismo, do neocolonialismo e do capitalismo. Construamos, juntos, o novo mundo possível, o mundo socialista", concluiu, sob aplausos.

A recepção às palavras do líder boliviano, indígena aymará, que conclamou homens e mulheres, jovens e idosos, pretos e brancos, a arregaçarem as mangas e irem à luta e à vitória pela sobrevivência da Humanidade, podem parecer desfocadas para os que costumam se ver pelo espelho da grande mídia, mas calaram fundo nos participantes. São declarações que, como tão bem sintetizou o escritor moçambicano Mia Couto, tem o dom de perfazer a maior das pontes, "essa que une o desespero à esperança".

Simbolismo

Nesta segunda-feira (7), a CUT participa na Ilha de Gorée, ponto de onde saíram milhões de escravos para as Américas, de um ato promovido conjuntamente pela Confederação Sindical Internacional dos Trabalhadores (CSI-África) e a CGIL-Itália. Na oportunidade, a secretária nacional de Combate ao Racismo da CUT, Maria Júlia Nogueira, fará a apresentação da cartilha "Igualdade faz a Diferença, Políticas para a Igualdade Racial e Combate à Discriminação".

A delegação cutista também participará da recepção ao ex-presidente Lula, que deve se reunir ao longo do dia com autoridades da região e dialogar com os participantes do Fórum Social Mundial.

 
Fonte: CUT Nacional / Leonardo Severo, de Dakar-Senegal
Walmar Pessoa
Author: Walmar Pessoa

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