O mercado financeiro recebeu com entusiasmo a aceitação de um pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff pelo chefe da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O dólar caiu 2,26%, para R$ 3,749, e a Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) teve a maior alta em um mês e subiu 3,29%, para 46.393 pontos, puxada, principalmente, pela alta das ações da Petrobras, foco das investigações de corrupção da Operação Lava-Jato. Os papéis preferenciais da petroleira chegaram a avançar 8,17% ao longo do dia e encerraram o pregão com elevação de 6,12%, cotados a R$ 7,98.

Na avaliação do professor de Finanças do IBMEC-DF José Kobori, a reação deixou clara a desconfiança do mercado na capacidade de gestão de Dilma. “A avaliação dos investidores era a de que, mantido o cenário de barganha no Congresso, a economia continuaria paralisada. O governo provou, com os exemplos da Petrobras e da Eletrobras, que a capacidade de gestão do Estado não é apenas limitada, mas também prejudicial ao emprego e às empresas”, disse. “A leitura que poderíamos fazer é que nada é pior do que a permanência de Dilma na presidência”, afirmou. Ele aposta que o processo impeachment não tem mais como ser interrompido.

A empolgação é vista com cautela pelos especialistas da Eurasia Group, uma consultoria de riscos políticos e de negócios. Para eles, as chances de Dilma não terminar o mandato são de 40%. “O mercado está vendo o impeachment como uma saída para a crise. Mas há uma dose excessiva de otimismo, pois está reconhecendo que um potencial governo do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP) seria melhor. Mas os mesmos fatores que hoje atrapalham Dilma, como a Operação Lava-Jato, continuarão atrapalhando Temer porque o PMDB também está sob investigação”, alertou o diretor para a América Latina do grupo, João Augusto de Castro Neves, em Washington.

Ele acredita que o processo de impeachment já colocou em segundo plano a urgência da agenda econômica e o aguardado ajuste fiscal. “Temer poderia ter uma lua de mel com os mercados e as ruas, mas logo cairia a ficha de que a Lava-Jato continua, e que a aliança PMDB-PSDB não será estável. O mercado está ignorando os riscos. Não há uma bala de prata para solucionar a crise”, afirmou Castro Neves.

O economista João Pedro Ribeiro, da Nomura Securities, destacou que os problemas fiscais do país poderão aumentar se o processo de impeachment for demorado, e isso poderá ter implicações negativas para a nota de crédito atribuída ao Brasil pelas agências de classificação. “Se os riscos forem contidos e o processo for rápido, uma reação positiva do mercado poderia ser mais duradoura”, disse.

Sombras

André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, também vê com cautela a euforia dos mercados, pois ainda é cedo para saber se a presidente Dilma vai de fato cair. “Não arriscaria dizer nada agora sobre a permanência ou não de Dilma e de Cunha, mas uma coisa é certa: os políticos agora vão ter que se resolver”, disse. “A crise brasileira é muito mais política do que econômica. O jogo que ocorria nas sombras do Congresso, onde uma série de pequenas chantagens e outras estratégias rasteiras da situação e da oposição paralisaram o país, acabou. Agora, essa luta foi para a luz do dia e as pendengas de 2014 podem, finalmente, ser resolvidas. Estamos ainda tentando resolver os problemas do ano passado, 2015 foi um ano que não existiu”, avaliou.

No entender do economista-chefe da INVX Capital Asset, Eduardo Velho, a reação do mercado tem outros motivos além do impeachment. Para ele, a melhora na bolsa e a queda do dólar também refletiram a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central — que deixou claramente aberta a porta para aumentar os juros no primeiro trimestre de 2016 — e à entrada de recursos chineses no país. “O BC sinalizou que a política monetária estará mais comprometida com o combater à inflação. Isso quer dizer que os juros podem subir mesmo com a economia encolhendo mais de 3%. O mercado entendeu que o órgão teve um posicionamento mais firme”, destacou.

Perfeito lembrou ainda que a aprovação pelo Congresso da alteração da meta fiscal, permitindo que o governo registre um rombo de até R$ 119,9 bilhões nas contas públicas, foi um alento para Dilma. No entanto, com o impeachment batendo à porta, a agendas de reformas ficará comprometida. “A nova meta deu um respiro para o governo, que, no entanto, dificilmente conseguirá aprovar a CPMF para o Orçamento de 2016 e vai ter que buscar outras fontes de receita, como a Cide sobre os combustíveis, que não precisa da aprovação dos parlamentares”, avaliou.

Na Europa, estímulos
Para estimular a economia, que não consegue retomar níveis robustos de crescimento, o Banco Central Europeu (BCE) cortou ontem os juros e anunciou a extensão do programa de compra de títulos públicos e privados. A taxa de depósito, que remunera os depósito dos bancos na autoridade monetária entrou ainda mais no terreno negativo, passando de -0,20% para -0,30% ao ano. Isso significa que os bancos pagarão ainda mais para deixar recursos parados no BCE. Além disso, a compra de ativos, que terminaria em setembro do próximo ano, vai continuar até o fim de março de 2017. “ou além disso, se for necessário”, disse o presidente da instituição, o italiano Mario Draghi.

Fonte: Correio Brasiliense

Walmar Pessoa
Author: Walmar Pessoa

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