Cerca de 60 mil pessoas, segundo a PM, caminharam até a Paulista

“Que bonito. É muito diferente do último domingo”, afirmou a presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, diante de um público estimado pela PM em 60 mil pessoas, que deixava o Largo da Batata, no bairro paulistano de Pinheiros, em direção à região da Avenida Paulista. A líder estudantil compara a manifestação desta quinta-feira (20), apoiada por mais de 50 entidades ligadas a movimentos populares “por mais direitos, por avanços e sem retrocessos” com os protestos que chamou de “golpistas” promovidos por organizações que pregam a derrubada do governo Dilma. “Viemos defender a democracia. Intervenção militar acontece todos os dias nas periferias deste país, matando pretos e pobres.”

Carina não deixou de acentuar críticas à condução da política econômica e ao ajuste fiscal: “O governo federal tem de estar mais conectado com o povo. Viemos trazer a agenda da juventude, dos trabalhadores, dos direitos sociais. O ajuste fiscal já retirou R$ 10 bilhões da educação.”

A presidenta da UNE protestou contra a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 171, que reduz a maioridade penal, aprovada ontem pela Câmara em segundo turno. “Estão querendo encarcerar a juventude pobre. A juventude precisa de salas de aula, e não de celas.” Ela concluiu elogiando a união das forças progressistas em torno da manifestação: “Viva a unidade dos movimentos sociais”.

A defesa da democracia temperada com críticas à política econômica permeou também as falas de lideranças da CUT, do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e da Central de Movimentos Populares (CMP). O presidente da CUT, Vagner Freitas, enfatizou que a manifestação defende um projeto nacional de desenvolvimento, com geração de empregos e renda e redução das desigualdades.
“Queremos respeito à democracia. Quem perdeu as eleições tem de parar com esse negócio de terceiro turno e se preparar para 2018”, afirmou Vagner.

“Mas não concordamos com essa política neoliberal nefasta para os trabalhadores. É preciso taxar as grandes fortunas. Quem ganha mais que pague mais. Também não concordamos com enfrentar a inflação com essa política de juros altos. O mercado não pensa nos trabalhadores”, disse o presidente da CUT. “Estamos aqui por reforma agrária, por uma reforma política que acabe com o financiamento empresarial de campanhas, por uma reforma tributária que reduza as desigualdades e por uma reforma de mídia que combata a concentração e o oligopólio dos meios de comunicação.”

A “indignação seletiva” dos protestos de domingo passado foi observada por Guilherme Boulos, do MTST. “Estamos aqui para rechaçar esse moralismo seletivo de quem foi à Avenida Paulista dizer que é contra a corrupção, mas aplaude Eduardo Cunha e Aécio Neves”, disse, referindo-se ao presidente da Câmara, que acaba de ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República por crimes de corrupção ativa e lavagem de dinheiro, e ao senador tucano e presidente do PSDB.

Cunha também foi alvo do discurso de Raimundo Bonfim, coordenador estadual da CMP: “Estranho que o nome de um dos maiores corruptos do país não foi visto em nenhum cartaz. Aquela elite que foi à Paulista domingo não quer acabar com a corrupção, quer é acabar com os programas sociais”.

Boulos foi contundente também ao criticar o governo federal: “Nós não estamos aqui para defender nenhum governo. Viemos também rechaçar o ajuste fiscal que corta investimentos sociais, e essa Agenda Brasil”, ressaltou, referindo-se a propostas apresentadas pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

A pretexto de instalar uma negociação que ponha fim à crise de governabilidade, Renan propõe medidas como aprovação do projeto que libera as terceirizações, a flexibilização de regras para concessão de licença ambiental, a alteração do tempo de contribuição para aposentadorias, entre outras, que abrem caminho para novas privatizações e atacam as terras indígenas. “Não aceitamos nenhum pacto sem povo. Isso é saída pela direita. E defendemos a saída pela esquerda. E ajuste fiscal no lombo dos ricos. Isso aqui é só o começo.”

O vice-presidente da CUT-SP, Douglas Izzo, disse que os jovens da periferia merecem educação e que o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) só responde com violência. No início do ato, os manifestantes fizeram um minuto de silêncio em memória dos 18 mortos na chacina na Grande São Paulo no último dia 13.

Moisés Ribeiro, coordenador e integrante da direção do Movimento dos Atingidos por Barragens, disse que a luta que está acontecendo no país é pelo pré-sal e afirmou que quem ameaça essa conquista do Brasil é o PSDB, referindo-se a projeto do senador José Serra (PSDB-SP) que diminui a participação da Petrobras na exploração dessa área.

A militante da Marcha Mundial de Mulheres Mara Lúcia da Silva considera que o atual momento de ascensão do conservadorismo é um risco duplo para as mulheres, que já hoje com todos os avanços ocorridos continuam sendo discriminadas, continuam sofrendo violência doméstica, continuam sofrendo violências nas ruas e ainda com diferenças salariais e péssimas condições para conseguir trabalho. Para ela, o avanço conservador com a retirada de direitos tende a ser duplamente prejudicial para as mulheres.

O professor Alex Antunes, militante do PCO, vê nas manifestações – de domingo e de hoje – momentos de “definição de interesses de classe” que estão em jogo na sociedade. “Temos visto grupos liberais e conservadores alinhados com interesses norte-americanos saindo às ruas. A esquerda, enfim, está reagindo. O Brasil inteiro está fazendo história hoje”, disse. O ativista considera que o governo Dilma não deve resistir às tentativas de golpe ou de enfraquecimento apenas “com manobras no Legislativo ou no Judiciário”. “A única força capaz de dar sustentação de fato ao governo é a dos trabalhadores.”

Rede Brasil Atual
Com reportagem de Eduardo Maretti e Rodrigo Gomes

Walmar Pessoa
Author: Walmar Pessoa

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