OPINIÃO: A culpa não é da mãe

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gestante_ana.jpgÉ notícia recorrente na mídia a redução dos índices de natalidade em diversos países, principalmente os mais ricos. Na Europa a situação é alarmante, com governos oferecendo incentivos para casais e até mulheres solteiras terem filhos. No Brasil, o chamado envelhecimento da população, conseqüência da diminuição no número de nascimentos, já preocupa a Previdência Social, e as propostas para aumento da idade para aposentadoria vêm ganhando corpo – e causando muita polêmica. A causa disso tudo é simples: as mulheres estão adiando a maternidade. Jovens de vinte e poucos anos, que há algumas décadas seriam consideradas "casadoiras", nem pensam em constituir família, concentrando-se em cursar faculdade, fazer pós-graduação e consolidar sua carreira, antes de pensar em casamento e filhos.

O adiamento da maternidade é conseqüência da maior inserção feminina no mercado de trabalho. Mas a análise mais rasa – e sexista – é de que as mulheres, ao buscarem o sucesso profissional e independência financeira, acabam provocando este problema social, adiando o momento de ter filhos. Para esta cultura machista dominante, a decisão individual, que bem serve para garantir o bem estar das que a tomam, prejudicaria a sociedade como um todo. No entender destes críticos, as mulheres não se importam com isso, preocupando-se apenas com elas mesmas, insistindo numa decisão egoísta e negando seu papel de donas-de-casa e mães.

Sim, é verdade que a construção de uma carreira interfere na vida pessoal. Mas que não se responsabilize as mulheres por um problema que não foi causado por elas! O adiamento da maternidade só é uma necessidade porque não se concede à mulher que trabalha a segurança para fazer um intervalo para ter – e criar – seus filhos sem prejudicar sua ascensão profissional.

Em um ambiente de trabalho cada vez mais competitivo, afastar-se para cuidar do bebê e reduzir a jornada de trabalho a fim de educar os filhos vulnerabilizam a mulher trabalhadora. Mesmo assim, as mães que trabalham são acusadas de negligência por não poderem dedicar-se exclusivamente a seu papel na família. Vemos uma crise de valores que leva jovens bem-nascidos e sem grandes dificuldades na vida a tomarem atitudes criminosas ou, no mínimo, moralmente reprováveis: agressões a moradores de rua e prostitutas, uso de drogas e brigas coletivas, algumas marcadas pela Internet, causam alarme. Quando estes fatos chegam ao conhecimento público, a causa é sempre a mesma: o jovem não foi corretamente educado porque quem deveria guiá-lo no caminho da moral estava concentrada no trabalho. Como sempre, a culpa é da mãe.

Assim que o projeto de lei da ampliação da licença-maternidade começou a tramitar no Senado, a mídia conservadora publicou diversas matérias em que ficava claro o entendimento da classe conservadora sobre o tema. As reportagens destacavam que muitas mulheres já não gozavam sequer dos 120 dias de afastamento por temerem prejuízos à carreira. Em paralelo, muitos empresários começaram a se manifestar contra a ampliação, dizendo que as mulheres sofreriam as conseqüências negativas desta medida, tornando-se menos "contratáveis". Quando foi aventada a possiblidade de se aprovar lei que ampliasse também a licença-paternidade, permitindo aos pais um maior envolvimento com os filhos, não foi diferente.

O envelhecimento da população provocado pela baixa natalidade é um problema que afeta toda a sociedade e que vai exigir uma mudança ampla para que seja revertido. Não só as empresas criam o ambiente hostil para as mulheres, mas todo o mercado de trabalho, com seus diversos atores. Colegas de trabalho – homens ou mulheres – se aproveitam da oportunidade de se fazerem notar durante o afastamento de uma mulher em licença-maternidade. O medo de que lhe "puxem o tapete" não é uma ficção na cabeça da mulher que decide ser mãe. É real a ameaça representada por seus pares, muito estimulada pelas empresas, através de uma cultura corporativa tão arraigada que parece natural adiar o momento de ter filhos para, antes, consolidar a carreira.

É muito fácil culpar as mulheres por um impacto social provocado por decisões individuais. Mas estas escolhas não são feitas arbitrariamente, por simples capricho, mas por uma necessidade que é imposta por circunstâncias que estão fora da família. É urgente que o mercado de trabalho e a sociedade como um todo compreendam a necessidade de se proporcionar às mulheres a possibilidade de se afastar com tranqüilidade para fazer aquilo de que a espécie humana não pode abrir mão: perpetuar-se.

Artigo de Renata Silver, jornalista da Federação dos Bancários do RJ/ES e mãe do Arthur, de 4 anos.

Fonte: Contraf-CUT

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