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A outra tática é a modalidade batizada de "sapatinho", em que os gerentes e as famílias deles são mantidos reféns, até que o bancário vá até a agência e retire as somas em dinheiro.
No ano passado, foram registrados 21 ataques a agências bancárias em todo o Estado. A maioria (11 casos) foi o roubo, na modalidade "vapor", acompanhada de perto pela prática do "sapatinho" (7 ocorrências). Houve, ainda, duas tentativas de roubo e um arrombamento. Esses números aumentaram em relação a 2009. Naquele ano, foram 14 assaltos, segundo o Sindicato dos Bancários do Pará e Amapá.
Diretor da Delegacia de Repressão de Roubos a Bancos (DRRB), da Divisão de Repressão ao Crime Organizado, o delegado Luís Xavier diz que a maioria das 21 ações criminosas do ano passado foi praticada nas regiões sul e sudeste, como Marabá e Redenção.
As quadrilhas preferem essas áreas por causa do baixo efetivo de policiais. Mas não apenas por isso, explica ele. É que o Pará possui uma extensa área territorial, que faz fronteira com outros Estados. São fronteiras "secas" (terrestres) e por água, havendo, portanto, uma infinidade de rotas de fuga. Para completar, as fronteiras são pouco vigiadas.
Luís Xavier diz que a orientação do governo estadual é que, após qualquer assalto a banco, seja "vapor" ou "sapatinho", um delegado da DRRB vá até o município em que o crime ocorreu e, em parceria com os policiais da cidade, faça a investigação. Identificados, esses bandidos devem ter suas prisões preventivas solicitadas à Justiça. "E eles serão presos onde quer que estiverem", afirma o delegado. "Eles podem estar escondidos no Pará, Maranhão, Piauí, Tocantins, Goiás e Mato Grosso, que nós iremos atrás", reforça.
Desses Estados, aliás, é oriunda grande parte dos integrantes dos bandos. O delegado Xavier cita como exemplo a quadrilha presa, mês passado, em Imperatriz (MA) e acusada de assaltar o Banco do Brasil de Baião, no dia 8 de fevereiro deste ano.
A quadrilha roubou aproximadamente R$ 400 mil da agência e, em uma espécie de arrastão, também levou dinheiro dos Correios e de uma padaria. O bando é formado por paraenses, maranhenses e cearenses. "Onze deles estão identificados (e já estão com mandados de prisão pedidos à Justiça), dos quais seis já foram presos", diz.
Um desses bandidos, apontado como líder da quadrilha, é Francisco dos Santos Silva, o "Super 15". O apelido é por causa do tipo de arma que ele usa nessas ações: um fuzil AR-15, que não foi apreendido. Segundo o delegado Xavier, "Super 15" e seus comparsas ficaram seis meses em Baião, levantando informações sobre o número de policiais da cidade e a rotina bancária, verificando, ainda, as rotas de fuga.
"Para não despertar suspeitas, ele e seus comparsas tiravam uma de vender relógios e DVDs", disse o delegado. Assim como os bandidos não têm rivalidade entre si e trocam informações o tempo todo quando os alvos são as agências bancárias instaladas em cidades vulneráveis, os policiais paraenses também mantêm intercâmbio com seus colegas de outros Estados. E essa parceria, destacou o delegado, tem sido fundamental para a prisão dos criminosos.
Algumas armas usadas em assaltos eram dos vigias dos bancos
Em 2010, os policiais da Delegacia de Repressão de Roubos a Bancos (DRRB) prenderam 62 acusados deste tipo de crime e apreenderam 15 armas – quatro fuzis, três cartucheiras calibres 12, quatro pistolas e quatro revólveres. Alguns dos revólveres foram roubados de vigilantes desses bancos. Os investigadores também apreenderam 123 munições dos mais diversos calibres e dez veículos (carros e motos). Este ano, os policiais já prenderam 22 acusados de assaltos a bancos e apreenderam cinco armas – um fuzil, três pistolas e um revólver, além de dois carregadores de fuzil magal.
O delegado Luís Xavier diz que, em média, cada quadrilha que pratica o "vapor" é formada por 10 a 15 bandidos. Ao sair das cidades, eles se escondem na mata. É o que eles chamam de "retiro". Os assaltantes erguem barracas de lona e lá ficam escondidos.
Para a mata, levam uma espécie de kit de sobrevivência: comidas enlatadas, farinha, açúcar e café, por exemplo. Os bandos podem ficar na mata de cinco a dez dias. Depois, começam a sair aos poucos, cada um com a parte que lhe cabe no roubo. Em média, cada assalto a banco pode render R$ 300 mil.
De acordo com Luís Xavier, as armas usadas nesses roubos são alugadas. São armamentos de grosso calibre e com valor de mercado muito alto. Esse armamento é alugado nos Estados do Mato Grosso, Tocantins e Maranhão. O aluguel de um fuzil AR-15, por exemplo, pode variar, dependendo da situação, de R$ 3 mil a R$ 10 mil. Já o aluguel de um fuzil calibre ponto 50, que derruba até avião, sai por R$ 30 mil.
O delegado lembrou que, em 2008, os assaltantes usaram uma arma como essa, cujo valor de mercado chega a R$ 300 mil, para tentar roubar um carro-forte na Alça Viária. Os vigilantes reagiram e tudo indica que um dos bandidos morreu. O corpo, nunca encontrado, teria sido jogado pelos comparsas em um rio. O fuzil calibre ponto 50 é alugado em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Delegado identifica preferência pela modalidade "sapatinho"
O delegado Xavier diz que muitos bandidos que praticam o "vapor" estão mudando para o "sapatinho". É que o primeiro crime causa uma comoção social muito grande. Por esse motivo, os bandidos sabem que serão procurados e que prendê-los será questão de honra para a polícia. Já na outra modalidade não existe todo esse clamor, embora os danos também sejam grandes às vítimas.
O titular da DRRB lembra que, no "vapor", os bandidos ofendem as vítimas, para as quais também falam palavrões. Ele afirma que, no assalto a banco em Garrafão do Norte, em janeiro de 2010, os criminosos foram além: na fuga, mostraram as nádegas para a população.
Mais tarde, foram presos, mas nenhum deles assumiu ter agido com deboche. Para dificultar as investigações, esses bandidos usam capuzes, máscaras, luvas, roupas de mangas compridas e camufladas, além de coletes à prova de bala. No assalto ao Banco do Brasil em Baião, este ano, os assaltantes abandonaram dois carros. Revoltados, os moradores quebraram um carro e tocaram fogo em outro.
No caso do "sapatinho", embora o número de vítimas seja menor, o dano psicológico também é expressivo. Até os policiais têm dificuldades em conversar com as vítimas, tamanho é o trauma. O gerente e seus familiares ficam, muitas vezes, mais de 13 horas em poder dos bandidos, que os ameaçam o tempo todo.
"Por isso, e de imediato, é difícil conseguir qualquer informação das vítimas. O abalo psicológico é muito grande", diz o delegado Xavier.
Estado aparece na 13ª posição do ranking de ocorrências
Uma pesquisa inédita, realizada pelo Sindicato dos Vigilantes de Curitiba e Região, revelou que, em 2010, houve 1.130 casos de assaltos a banco e arrombamentos de caixa eletrônico em todo o País. A pesquisa compreende o período de janeiro a dezembro de 2010.
Nesse ranking, o Pará aparece em 13º lugar, com 27 ocorrências (número que não confere com os dados em poder da polícia e do Sindicato dos Bancários do Estado, que contabilizam 21 ataques no ano passado).
O levantamento também mostra que cidades do interior são as preferidas pelos assaltantes, pois as agências dispõem de menos equipamentos de segurança e o efetivo policial não é suficiente. As ocorrências mais graves geralmente são precedidas por sequestro e seguidas de ações violentas com reféns.
Mas, de acordo com a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), em 2009 foram registrados apenas 430 casos de assalto. "Os dados são contraditórios, pois não é possível terem triplicado em 2010. Isso comprova que os banqueiros não se importam com funcionários e clientes, pois, se realmente mostrassem a realidade dos casos, revelariam a deficiência do sistema de segurança das agências. O dinheiro que é roubado tem seguro, por isso eles resistem em investir mais para proteger a vida das pessoas", afirma João Soares, presidente do SindVigilantes de Curitiba e Região.
Assaltos a banco no Pará em 2011
18 de janeiro – Banco do Brasil (São Félix do Xingu): sapatinho
19 de janeiro – Banco do Brasil (São Geraldo do Araguaia): sapatinho
2 de fevereiro – Banco do Brasil (Santana do Araguaia): vapor
7 de fevereiro – posto de atendimento bancário do Banpará de Brejo Grande do Araguaia: vapor
7 de fevereiro – agência dos Correios (correspondente bancário do Bradesco), Santa Maria das Barreiras: vapor
8 de fevereiro – Banco do Brasil (Baião): vapor
10 de fevereiro – Banco do Brasil (Rio Maria): sapatinho
10 de fevereiro – Banco do Brasil (Santo Antônio do Tauá): arrombamento
Fonte: DRRB/Polícia Civil
Assaltos a banco no Pará em 2010
9 de janeiro – Banpará (Garrafão do Norte): vapor
14 de janeiro – Banco da Amazônia (Redenção) sapatinho
1º de março – Banco do Brasil (Baião): vapor
9 de março – Banco do Brasil (Jacundá): vapor
23 de abril – Banpará (Brejo Grande): sapatinho
6 de maio – Banco do Brasil (São Domingos do Araguaia): vapor
7 de maio – HSBC (Marabá): tentativa de sapatinho
16 de julho – Banpará (Sapucaia): sapatinho
3 de agosto – Banpará (Santarém): sapatinho
4 de agosto – Banco do Brasil (São Domingos do Araguaia): vapor
9 de agosto – Banco da Amazônia (Eldorado dos Carajás): vapor
9 de agosto – Banpará (Eldorado dos Carajás): vapor
13 de agosto – Bradesco (Palestina do Pará): vapor"
29 de agosto – posto bancário do Real (Belém): arrombamento
14 de outubro – HSBC (Redenção): sapatinho
20 de outubro Banco do Brasil – (Bom Jesus do Tocantins): vapor
20 de dezembro – posto de atendimento bancário do Banpará de Tracuateua: sapatinho
23 de dezembro – Banpará (Castanhal): sapatinho
Em 9 de setembro foram dois roubos (Bradesco e Banco do Brasil, em São Félix do Xingu) e uma tentativa de assalto (Banco do Brasil de Ananindeua). Na ação criminosa em Ananindeua, os bandidos não conseguiram roubar o malote, mas mataram o vigilante.
Fonte: DILSON PIMENTEL – Amazônia Jornal – Belém/PA