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Os trabalhadores, eternos reféns dos efeitos das crises financeiras internacionais, como a última, que começou com a quebradeira de bancos nos EUA e na Europa em 2008, exigem que suas propostas sejam levadas em consideração pelo governo federal. Queremos mais que a manutenção dos empregos. Queremos continuar o processo de distribuição de renda via massa salarial e a valorização do trabalhador, iniciados no governo do ex-presidente Lula.
É preciso proteger a indústria nacional, justifica o governo quando divulga medidas para estimular a economia, aumentar a competitividade e a produtividade das empresas. O discurso oficial garante que os benefícios fiscais mantêm os empregos e até abertura de mais postos de trabalho.
Com este argumento, aos poucos e sem alarde, o governo já atendeu várias das 101 medidas que a CNI propôs na semana passada alegando que é preciso modernizar as relações trabalhistas. Entre as medidas que o governo já concedeu estão benefícios fiscais, redução de custos para contratar e financiamento mais barato.
A maioria das propostas feitas pela CNI e ainda não atendidas pelo governo, no entanto, vai na direção de eliminação de direitos que levaram anos e muitas lutas para ser conquistados, como as cotas para pessoas com deficiência e as garantias da maternidade; a flexibilização total do tempo de trabalho, sem ter que pagar por isso; a eliminação completa do poder de punição da fiscalização que ficaria só como órgão orientador ; sem contar que coloca em dúvida todas as decisões e súmulas do TST – Tribunal Superior do Trabalho; e transfere para o governo todos os custos dos direitos trabalhistas.
Os empresários parecem ignorar que o Brasil só passou pela crise porque houve fortalecimento do mercado interno, especialmente via valorização do salário mínimo, conquistado depois de muita pressão e mobilização capitaneadas pela CUT, durante o governo do ex-presidente Lula. É preciso lembrar a eles, empresários, e também aos tecnocratas do governo que a melhoria da distribuição de renda via trabalho, aliada a programas como o Bolsa Família, contribuiu fortemente para sustentar o país nesses tempos de crise.
Concordamos que é preciso proteger nossa indústria e garantir o emprego e apoiamos os estímulos tributários e financiamentos mais baratos, entre outros, desde que o objetivo seja priorizar o Brasil e levar em consideração os interesses da classe trabalhadora.
O que não admitimos é que a classe trabalhadora não receba do governo o mesmo tratamento dado aos empresários. Digo isto porque a pauta de reivindicações da classe trabalhadora, até agora, ainda não foi levada em consideração pelo governo.
Para nós, a crise econômica internacional serve de desculpa para o governo engavetar todas as propostas. Já para os empresários, serve para atender várias reivindicações. Desde o início da crise em 2008, por exemplo, 41 setores da economia foram beneficiados com medidas de estímulo – redução do IPI, desoneração de folha de pagamento – alíquota de contribuição previdenciária de 20% sobre folha passou para 2% sobre faturamento -, e financiamento mais barato.
Enquanto isso, os trabalhadores esperam, desde 1º de maio deste ano, que o governo cumpra a promessa que fez, em praça pública, de isenção de imposto de renda a PLR – Participação nos Lucros e Resultados. A medida, inclusive, contribuiria para complementar o projeto político e econômico do Brasil que é manter a renda para manter o consumo e fortalecer cada vez mais o mercado interno, como diz o governo.
O fim do Fator Previdenciário é outra reivindicação dos trabalhadores que não faz parte das prioridades da equipe econômica. A Câmara dos Deputados está pronta para votar e aprovar, mas por pressão do governo federal, a pauta saiu, mais uma vez, da ordem do dia.
Os trabalhadores são protagonistas do processo de desenvolvimento do país e exigem participar da discussão sobre os rumos da economia. Queremos atuar diretamente no processo de decisão e não ser atores indiretos ou ignorados.
Queremos negociar com o governo e os empresários, desde que haja transparência e seriedade, estratégias de desenvolvimento sustentável com distribuição de renda, justiça social, fim da pobreza e pelo trabalho decente. E, claro, que nossas reivindicações sejam debatidas, negociadas e acordadas, pois isso faz parte do processo de negociação.
O que não faz parte é engavetar reivindicações ou prometer e não cumprir, como é o caso da PLR, do fim do fator e das demissões no setor privado, apesar das medidas de estímulo a economia.
Vagner Freitas,presidente nacional da CUT
Fonte: CUT