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Almir Aguiar destaca impactos da digitalização sobre emprego, relações de trabalho e direitos e defende que trabalhadores participem das decisões sobre novas tecnologias
A inteligência artificial (IA) e a digitalização estão transformando o mundo do trabalho em uma velocidade que ainda não é acompanhada pelo movimento sindical. Para enfrentar esse cenário, é necessário ampliar o debate, formar dirigentes e, principalmente, garantir que os trabalhadores tenham participação nas decisões sobre a implantação de novas tecnologias.
Essa foi uma das principais conclusões da participação do secretário de Combate ao Racismo da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Almir Aguiar, no Workshop sobre Digitalização e Emprego na América Latina, realizado nos dias 6 e 7 de agosto, na sede da Fundação Ford, no Rio de Janeiro.
Organizado pela Global Fund for a New Economy, Labora e Workers Horizons, o encontro reuniu lideranças sindicais, acadêmicas e representantes da sociedade civil de diversos países latino-americanos para dois dias de debates e construção de estratégias diante dos impactos das novas tecnologias sobre o emprego, as relações de trabalho e os direitos.
Um dos dados apresentados durante o encontro ajuda a dimensionar o desafio: segundo representante da Confederação Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas (CSA), apenas 16% das centrais sindicais da América Latina debatem temas relacionados à inteligência artificial.
Para Almir, o número revela a urgência de colocar o tema no centro da agenda sindical. “A inteligência artificial está avançando numa velocidade muito maior do que o debate no mundo sindical. Precisamos compreender essas transformações, formar nossos dirigentes e, principalmente, levar a IA para a mesa de negociação coletiva. Não podemos permitir que decisões sobre tecnologias que afetam empregos, salários e condições de trabalho sejam tomadas sem a participação dos trabalhadores.”
Algoritmos também podem reproduzir desigualdades
Outro ponto de preocupação apresentado durante o workshop foi o risco de que sistemas de inteligência artificial reproduzam ou aprofundem desigualdades já existentes na sociedade.
Os participantes discutiram, por exemplo, ferramentas utilizadas em processos seletivos capazes de analisar comportamento, gestos, olhar, expressões e outras características dos candidatos. O debate chamou atenção para os possíveis vieses raciais e de gênero incorporados aos sistemas automatizados de seleção.
Também foram apresentados exemplos de possíveis discriminações em processos de contratação nos Estados Unidos e experiências envolvendo plataformas digitais na América Latina. Entre as preocupações está a possibilidade de algoritmos distribuírem oportunidades de trabalho de maneira desigual entre homens e mulheres ou entre trabalhadores brancos e negros.
Para Almir, a tecnologia não pode ser utilizada para reproduzir preconceitos presentes nas bases de dados utilizadas para desenvolver os sistemas. “O algoritmo não pode se transformar em uma nova ferramenta de discriminação. Se uma tecnologia reproduz racismo, desigualdade de gênero ou qualquer outra forma de exclusão, precisamos ter mecanismos de transparência, fiscalização e responsabilização. O trabalhador tem o direito de saber quais critérios estão sendo utilizados para tomar decisões que interferem na sua vida profissional.”
A preocupação com a discriminação algorítmica ganha uma dimensão ainda maior quando sistemas automatizados passam a participar de decisões que envolvem contratação, promoção, avaliação de desempenho e distribuição de oportunidades.
Regulamentação precisa acompanhar avanço tecnológico
A necessidade de regulamentar a inteligência artificial também esteve no centro das discussões. O desafio é permitir o desenvolvimento tecnológico sem abrir mão da proteção de direitos fundamentais, privacidade, segurança, ética e responsabilização pelas decisões tomadas com auxílio de sistemas automatizados.
Os debates mostraram que a discussão vai além das relações tradicionais de trabalho. Questões envolvendo veículos autônomos, plataformas digitais e utilização de IA na área da saúde também demonstram a necessidade de estabelecer responsabilidades humanas e institucionais diante de decisões mediadas por novas tecnologias.
Para o movimento sindical, a regulamentação precisa acompanhar o avanço tecnológico, garantindo mecanismos de controle social e proteção das pessoas.
Bancários já vivem os efeitos da transformação
Durante o workshop, Almir Aguiar apresentou a experiência dos trabalhadores do sistema financeiro brasileiro, uma categoria que já convive diariamente com os efeitos da digitalização e da inteligência artificial.
Abertura de contas, contratação de empréstimos e realização de investimentos pelo celular reduziram a necessidade de atendimento presencial. Chatbots e assistentes virtuais passaram a executar parte do atendimento aos clientes. Ao mesmo tempo, sistemas automatizados são utilizados na análise de documentos, conferência de dados, processamento de operações, concessão de crédito, identificação de fraudes e personalização de ofertas.
A transformação também alterou a própria organização do trabalho. Plataformas digitais passaram a ser utilizadas para trabalho remoto, gestão de equipes, acompanhamento de desempenho e monitoramento da produtividade.
Esse processo tem consequências diretas para o emprego bancário, com redução de postos de trabalho, fechamento de agências e substituição de atividades anteriormente realizadas por trabalhadores.
Caso Itaú mostra riscos do monitoramento digital
Entre os exemplos apresentados por Almir esteve o processo de demissões realizado pelo Itaú em setembro de 2025, envolvendo trabalhadores que atuavam em regime remoto ou híbrido.
Segundo informações divulgadas à época e denunciadas pelas entidades sindicais, mais de mil trabalhadores foram desligados em um processo no qual dados obtidos por ferramentas de monitoramento da atividade nos computadores corporativos tiveram papel relevante na avaliação da produtividade.
O episódio provocou reação do movimento sindical e ampliou o debate sobre os limites do monitoramento digital e o uso de métricas automatizadas para avaliar o desempenho dos trabalhadores.
Para Almir, o caso demonstra os riscos de transformar informações produzidas por sistemas digitais em critérios determinantes para decisões sobre a vida profissional. “O caso do Itaú é um alerta muito concreto. Não podemos aceitar que o trabalhador seja reduzido a uma métrica produzida por um software. Tecnologia pode auxiliar a organização do trabalho, mas não pode substituir o diálogo, desconsiderar a realidade da jornada ou servir como instrumento de vigilância excessiva e demissão.”
Negociação coletiva é ferramenta para proteger trabalhadores
Apesar dos desafios, a experiência da categoria bancária também demonstra que a negociação coletiva pode estabelecer limites para o uso das novas tecnologias e garantir direitos aos trabalhadores.
A Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) dos bancários já possui garantias relacionadas às novas formas de organização do trabalho. Entre elas estão 12 cláusulas que regulamentam o teletrabalho, além de regras relacionadas à cobrança de metas por mensagens e aplicativos e à proteção do direito à desconexão.
A categoria também conquistou proteção contra formas invasivas de vigilância, como a proibição do uso de câmeras para monitoramento permanente do trabalhador dentro de sua residência.
Outra conquista é a verba de requalificação profissional para trabalhadores desligados, atualmente de R$ 2.415,68, além de iniciativas de capacitação e criação de oportunidades diante das transformações tecnológicas.
Também foram desenvolvidos cursos de qualificação para mais de 3 mil mulheres na área de Tecnologia da Informação (TI), além de iniciativas de requalificação e informações aos bancários sobre possibilidades de realocação em novas funções.
Um dos avanços considerados mais importantes é a criação de uma Mesa de Negociação Permanente para discutir os impactos da inteligência artificial e de outras tecnologias, com calendário definido de negociações.
“Inteligência artificial também é pauta sindical”
Para Almir Aguiar, a experiência dos bancários demonstra que o movimento sindical não pode esperar que os efeitos das novas tecnologias apareçam para depois tentar enfrentá-los.
A participação dos trabalhadores deve acontecer desde o momento em que novas ferramentas são planejadas e implantadas, discutindo seus impactos sobre emprego, qualificação profissional, jornada, saúde, privacidade, igualdade de oportunidades e condições de trabalho.
“Não somos contra a inteligência artificial nem contra os avanços tecnológicos. O que defendemos é que essa transformação seja negociada e tenha o ser humano no centro das decisões. Se a tecnologia aumenta a produtividade e a riqueza das empresas, os trabalhadores também precisam participar desses benefícios. Inteligência artificial também é pauta sindical e precisa estar na negociação coletiva.”
O workshop reforçou a necessidade de ampliar a articulação entre as organizações sindicais da América Latina para enfrentar os impactos da transformação tecnológica de forma coordenada.
Para a Contraf-CUT, o desafio não é impedir a chegada das novas tecnologias, mas garantir que o futuro do trabalho seja construído com participação dos trabalhadores, assegurando emprego, direitos, igualdade, proteção social, qualificação profissional e trabalho decente.
Fonte: Contraf-CUT





