‘Para garantir Estado Democrático, país precisará manter mobilizações que construíram vitória histórica de Lula’, Juvandia Moreira

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Durante o podcast “Quarta Sindical”, a presidenta da Contraf-CUT e o professor Emerson Cervi avaliaram os fatores que reelegeram Lula e os desafios dos campos progressistas diante da nova composição do Congresso Nacional

O papel da juventude, dos movimentos sociais de esquerda, dos sindicatos e da direita democrática na vitória histórica de Lula à reeleição como presidente da República. Os erros do campo progressista que fizeram com que o bolsonarismo quase vencesse no primeiro turno e os desafios para continuar defendendo o Estado Democrático e avançar em direitos à classe trabalhadora, sobretudo diante da nova composição do Congresso Nacional.

Esses foram os temas debatidos pela presidenta da Contraf-CUT, Juvandia Moreira, e o cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emerson Cervi, na edição desta semana do podcast “Quarta Sindical”, realizado pelo jornal Brasil de Fato em parceria com a CUT Paraná, com apresentação do presidente da entidade, Márcio Kieller e da jornalista Ana Carolina Caldas.

Diferente do habitual nas disputas eleitorais brasileiras, seja à presidência da república, seja aos governos estaduais — em que quem lidera o primeiro turno costuma consolidar a vitória —, Lula protagonizou uma recuperação histórica, em apenas três semanas, vencendo o seu oponente Flávio Bolsonaro, com um avanço de praticamente 10 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno.

“O que definiu a virada não foi o retrocesso dos votos na extrema-direita, mas o avanço acelerado que Lula teve nas três semanas de segundo turno. O não bolsonarismo — e não digo apenas a esquerda — foi decisivo: quem elegeu Lula de fato foi a junção da esquerda com a direita democrática”, destacou Emerson Cervi.

O professor ressaltou ainda que a disputa rompeu a falsa divisão entre o universo virtual e o presencial. “O digital e não digital são apenas diferentes dimensões de um mesmo espaço que é o espaço eleitoral. E, conforme avaliado desde as eleições de 2022, quem ocupa mais os espaços digitais, também ocupa mais as ruas”, explicou o professor.

A grande vitória de Lula, portanto, foi a articulação de vários movimentos, liderados sobretudo por Janones, e que conseguiram ocupar mais as ruas e os espaços digitais que o bolsonarismo, mesmo este último tendo sido beneficiado pela Meta (dona das redes sociais Facebook, Instagram e do WhatsApp).

“O grupo de WhatsApp do Sindicato dos Bancários de São Paulo foi suspenso no exato momento em que estavam fazendo um protesto em frente à Meta e só foi devolvido agora, após as eleições”, destacou Juvandia Moreira.

A dirigente apontou também que a derrota momentânea na primeira etapa, funcionou como um despertador para a sociedade civil. “Costumo dizer que a gente ganhou porque perdeu.  Foi a partir da derrota no primeiro turno que começou a campanha de verdade, com debate, participação e qualificação sobre o que o bolsonarismo representa. Todo mundo resolveu tomar conta da campanha ao entender o que estava em risco: direitos estudantis, dos sindicatos, direitos de trabalhadores, dos idosos, das mulheres”, observou Juvandia Moreira.

O “Exército de Janonis”, por sua vez, conseguiu direcionar esse sentimento de urgência coletiva em defesa da democracia, da soberania nacional, das empresas públicas, das terras raras e dos direitos civis, funcionando como um catalizador da articulação dos campos progressistas nas ruas e nas redes.

“A gente via, nas ruas, o desespero das pessoas comuns. O medo de que o ódio deles [do bolsonarismo] fosse ainda mais disseminado. Muitos que não votaram no segundo turno nos falavam que iriam às urnas no segundo turno para impedir a vitória bolsonarismo. Foi esse movimento de todos assumindo a responsabilidade pela eleição de Lula, no segundo turno, que resultou na vitória do respeito, do amor, de um mundo mais civilizado, da liberdade religiosa, da livre manifestação política, uma vitória do combate ao racismo, à homofobia e, principalmente, vitória para nós mulheres contra a violência”, registrou Juvandia.

A jornalista Ana Carolina Caldas chamou a atenção para o aprendizado vindo do primeiro turno, destacando que a “sensação de que a eleição já estava ganha” foi um dos principais erros da campanha inicial, superado apenas quando a população assumiu o protagonismo no segundo turno.

Complementando a avaliação sobre o clima político, o presidente da CUT Paraná, Márcio Kieller, relembrou o alívio das forças progressistas e do movimento sindical com o resultado: “Estávamos profundamente preocupados. Porque, no desgoverno Bolsonaro, não tínhamos diálogo algum; não éramos chamados sequer para ouvir um ‘não'”.

As lições do segundo turno para os próximos quatro anos

Se a vitória no segundo turno garantiu a preservação das instituições e da Constituição Federal de 88, o cenário que se desenha a partir de 2027 exigirá articulação política constante. Isso por causa da composição do Congresso Nacional aprovada nas urnas de aumento da extrema-direita e de setores conservadores, especialmente no Senado, onde o Partido Liberal (PL) obteve o maior crescimento.

“A extrema-direita cresceu no parlamento em todo o mundo, e no Brasil não seria diferente. Diante desse cenário, se não houver continuidade da pressão social contra os exageros da extrema-direita no Congresso, a vida de Lula será muito difícil para governar”, reforçou Emerson Cervi.

O professor acrescentou que, embora o bolsonarismo mantenha uma base eleitoral consistente, a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos amplia descontentamento e as disputas de liderança internas dentro do próprio campo da extrema-direita, no período pós-eleitoral.

Juvandia Moreira, por sua vez, defendeu que o governo precisará reformular sua estratégia de comunicação e governança, para transformar a mobilização popular direta em sua principal força de sustentação política. “Estamos cansados, mas felizes e de alma lavada. A vitória assegura a soberania e os direitos do povo, mas a composição da Câmara e do Senado nos coloca o dever de continuar cobrando, debatendo e nos mobilizando todos os dias”, arrematou.

Como exemplo de como as forças populares poderão auxiliar Lula a governar o país, mesmo diante de uma composição adversa no Congresso, Juvandia lembrou do Fim da Escala 6×1 e da Isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, pautas do governo que foram vencidas na Câmara e no Senado por conta do grande apelo popular. “Nos próximos quatro anos, entre as prioridades do movimento sindical estão a ratificação da Convenção 151, que trata das relações de trabalho e da negociação coletiva no funcionalismo público, o projeto de atualização da representação sindical e a revisão da reforma trabalhista”, pontuou.

Fonte: Contraf-CUT

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