"…um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social – realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama"

O leitor deve ter estranhado o calor dos adjetivos que embala o editorial acima, vindo de quem vem. Seria afinal uma auto-crítica das ações golpistas adotadas ao longo do governo Lula? Um reconhecimento tardio da expressão da vontade popular? Uma tentativa de recuperar leitores e credibilidade? Busca frenética e alucinada por novos caminhos, a fim de apagar rastros tão covardes quanto comprometedores? Não, amigos. A parte do editorial da Folha de S. Paulo, citada acima, é datada de 22 de setembro de 1971, período áureo da repressão, tem o nome de Banditismo e é assinado pelo patriarca do jornal, Octavio Frias de Oliveira.

O "governo sério, responsável e respeitável" de quem fala o progenitor dos atuais donos da Folha – que também se crêem donos da verdade e da história – foi o criador da Operação Bandeirantes, Oban, de triste memória, responsável pelos mais vis assassinatos, repugnantes sevícias e longas sessões de torturas. O "apoio popular" de que fala o jornal era tão "indiscutível" que o termômetro para apurá-lo foi quebrado, diante de tanta emoção, com o Congresso Nacional sendo fechado. Quanto aos seguros caminhos do "desenvolvimento com justiça social", dispensa comentários a concentração de renda, a desnacionalização, a economia transformada em pasto para estrangeiros do porte dos que financiavam a Oban. Mas, para a Folha, a realidade era outra. Talvez por isso emprestasse tão graciosamente as peruas C-14 do jornal para transportar para as masmorras tantas e tantos que não eram "lúcidos", que teimavam em negar sua verdade caricaturada, manipulada, prostituída, transformada em mentira e em governo. Sentenciava o velho Frias que aquela sim era uma democracia de verdade e que, para além do país inteiro," o mundo todo" a reconhecia e proclamava.

Reproduzindo os manuais de redação da CIA, o editorial em questão atacava a sanha assassina do "terrorismo", como eram chamados os heróis que se levantaram contra o reinado do terror e da infâmia. Comemorava "a morte recente de um de seus mais notórios cabeças", o capitão Carlos Lamarca, dirigente do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, o MR8. Para a Folha, os militantes de esquerda que regavam o futuro com seu sangue generoso, que semeavam a terra com sua própria carne, que nutriam a confiança pela Humanidade e alimentavam a esperança no povo brasileiro, eram "o pior tipo de marginais". As idéias de justiça e paz que propunham deviam ser levadas com eles para bem baixo da terra, o mais fundo possível, em cemitérios clandestinos. Afinal, o Brasil não poderia desperdiçar a oportunidade histórica de ter um governo tão identificado com os Estados Unidos, talvez pudéssemos ser uma estrela a mais naquela bandeira tão linda, não é mesmo? E o que falar da "sua" imprensa, tão plural e democrática, quanto veraz? Este era o Brazil dos gringos e do lupanar da Barão de Limeira. "Um país, enfim, de onde a subversão – que se alimenta do ódio e cultiva a violência – está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da Imprensa, que reflete os sentimentos deste. Essa mesma Imprensa que os remanescentes do terror querem golpear", dizia a Folha no citado editorial.

Passaram-se os anos e os meninos de Frias cresceram, e seu condomínio familiar decidiu suavizar a ditadura a quem serviu, chamando-a de "ditabranda", enquanto coalhava de impropérios e ignomínias o governo venezuelano, assim como já fez anteriormente contra Cuba e todo aquele que ouse não andar de quatro para seus amos. Ao projetar sua imoralidade e impotência diante da altivez, seu furor entreguista expõe sua pusilanimidade: a profunda identidade com o neoliberalismo privatista, com o servilismo aos senhores de Washington…

Para horror da Folha, não há tinta nem papel no mundo que chegue para abafar a história. Suas rotativas podem vomitar mentiras à vontade. O povo brasileiro, como bem disse o presidente Lula, continuará, humildemente, chamando os homens e mulheres que lutaram para virar a página da ditadura pelo seu nome: heróis.

Artigo de Antonio Carlos Spis, membro da executiva nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS).

Fonte: CUT

Walmar Pessoa
Author: Walmar Pessoa

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