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Jaílton Garcia
Clemente Ganz Lúcio, diretor-técnico do Dieese, fala no 24º Congresso do BB

Enquanto na Europa e nos Estados Unidos os trabalhadores lutam para segurar o emprego e não perder direitos, os brasileiros estão ampliando conquistas. Essa situação inédita está sendo possível em razão da pressão do movimento sindical e da política econômica dos últimos dez anos no Brasil. Mas para que os trabalhadores continuem avançando, será necessário ir além das lutas corporativas das categorias e fazer a disputa das grandes questões nacionais, sobretudo o da distribuição da riqueza, o que exigirá do movimento sindical visão estratégica como classe, capacidade de articulação, fortalecimento da unidade e mais musculatura.

Essa foi, em síntese, a avaliação que o economista Clemente Ganz Lúcio, diretor-técnico do Dieese, fez da conjuntura econômica, política e social do país na palestra que proferiu neste sábado 18, no segundo dia do 24º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil, que está sendo realizado no hotel Holiday Inn, em São Paulo.

“Estamos numa maratona. Até aqui corremos na reta. Agora começa a subida da ladeira.” Clemente Ganz usou essa metáfora para alertar sobre as dificuldades e desafios que o movimento sindical terá de enfrentar daqui por diante para continuar conquistando avanços econômicos e sociais.

‘É preciso abrir um novo campo de disputa’

Na opinião do diretor-técnico do Dieese, o Brasil sobreviveu até agora à “maior crise da história do capitalismo”, enquanto a Europa afunda e os Estados Unidos e o Japão patinam, por causa da mudança da política macroeconômica assentada em três pilares estruturais: crescimento do mercado interno, geração de emprego e renda e diminuição da desigualdade.

“Criamos uma situação que permite sonhar com a possibilidade de construirmos uma país desenvolvido, capaz de oferecer bem-estar e dignidade à sua população”, afirmou. “Mas temos pela frente uma situação diferente e é preciso abrir um novo campo de disputa.”

Clemente Ganz avalia que o patronato, com a ressonância da mídia, está ganhando algumas disputas na sociedade. Por exemplo, em relação à inflação. “Eles convenceram a sociedade de que a inflação fugiu do controle. E forçaram o Banco Central a aumentar a taxa básica. Usaram o tomate para isso, quando na verdade a inflação hoje é igual à dos últimos oito anos e menor do que era no governo de Fernando Henrique”, comparou.

O diretor-técnico do Dieese aponta esse exemplo como um dos grandes temas nacionais sobre os quais os trabalhadores precisam fazer a disputa com o capital, porque são questões que interessam à classe trabalhadora. Outros temas são a educação (“temos de apoiar a tese de investir 10% do PIB na educação), infra-estrutura, valorização do salário mínimo, reforma tributária, reforma política, juros, marco regulatório da comunicação, dentre outros.

“Não é uma luta de uma categoria. É de todos os trabalhadores, o que exige grande capacidade de articulação”, disse.

Leia abaixo os principais trechos da palestra do diretor-técnico do Dieese:

‘Vivemos a maior crise do capitalismo’

Clemente lembrou que dois terços da juventude está sem emprego na Europa, ressaltando as semelhanças já vivenciadas no Brasil há cerca de 20 anos e das lições que devemos tirar disso.

“Certamente vivemos a maior crise do capitalismo, que teve início há cerca de cinco anos. Temos consciência do resultado desse processo, pois já vivenciamos esta mesma situação em nosso país, por isso, sabemos que o remédio buscado na Europa através do FMI só trará mais perda de emprego, direitos, bem estar social, entre outros”, disse.

A crise também atinge outras economias desenvolvidas, como Estados Unidos e Japão. “Os EUA passam há quase uma década com o aumento da desigualdade. O Japão patina há 20 anos. Talvez o Japão esteja passando por um processo que podemos chamar de pós-economia industrial e precisa experimentar novos paradigmas econômicos, como na área de serviços e bem estruturais.”

O economista do Dieese fez ainda uma comparação entre a situação atual e as crises que vivemos no passado. “Bastava um espirro na Argentina ou no México e nós pegávamos pneumonia. Hoje estamos lutando de pé, enquanto a Europa está de joelhos. Estamos entre a quinta e sétima economia mundial, temos atualmente uma reserva de R$ 400 bilhões e experimentamos o mais longo período de democracia de nossa história, iniciado há cerca de 25 anos.”
Valorização do salário mínimo

Para Clemente, o papel dos trabalhadores é aprofundar este tipo de mudança com pressão, organização e luta. “Pela primeira vez na história foi aprovado com unanimidade uma política de valorização do salário mínimo. Em 93 e 94 este mesmo salário tinha como poder de compra a aquisição, por exemplo, de cerca de um quarto da cesta básica. Atualmente, este mesmo poder de compra tem a capacidade de adquirir três cestas básicas de alimentos. Portanto, o contexto atual mostra que criamos condições favoráveis para lutarmos por mais conquistas.”

Segundo Clemente, nos últimos dois anos o governo mudou a política monetária, reduzindo a taxa básica de juros de mais de 6% para 2% real. “Com isso, no primeiro ano os rentistas deixaram de ganhar R$ 50 bilhões, recursos que em boa parte foram deslocados para o sistema produtivo. Ou seja, investimento produtivo em vez de ganhos com juros escorchantes.”

Outra medida tomada pelo governo foi aumentar capacidade produtiva da economia de competir no mercado internacional com as desonerações e redução de tarifas, por exemplo, da energia elétrica. “O setor de energia elétrica, concessão pública operada pela iniciativa privada, e que só perde em retorno para o sistema financeiro, passou a operar com uma nova taxa. O resultado disso foi a redução do custo no sistema produtivo.”

Novo caminho de disputa

Na visão de Clemente, é preciso inverter a lógica perversa do ‘rentismo’ e lutar para que o capital seja investido na produção, o que alavanca a economia interna com a criação de empregos e geração de renda. “O movimento sindical precisa participar mais ativamente dessa disputa para que o capital seja direcionado à produção”.

Sobre a inflação, Clemente observou que os patrões “empacotaram” os trabalhadores de uma maneira inteligente. “Transformaram o tomate no grande vilão da economia brasileira. Essa história deu tão certo que fez o Banco Central elevar a taxa Selic em 0,25%. E a tendência é que a instituição continue elevando os juros nos próximos meses”.

‘Trabalhadores deviam propor desindexação da economia’

Essa mudança de rumo do BC, que estava numa escalada de queda da taxa de juros, na opinião de Clemente, indica uma revisão da atual política econômica do governo. “O aumento da Selic proporcionará mais ganho real para quem tem aplicação financeira. Em razão disso, o movimento sindical deve ousar e propor a desindexação da economia brasileira”.

Segundo Clemente, este momento é importante para os trabalhadores trabalharem sua unidade. “Em vez ficarem brigando entre si, as diversas correntes do movimento sindical precisam se unir e brigar com nossos verdadeiros inimigos. Nossos próprios companheiros são mais nossos inimigos do que nossos amigos. Precisamos canalizar essa raiva contra os leões.”

“Nos últimos 20 anos, soubemos protestar e podemos fazer mais, respeitando nossas diferenças. Se soubermos agir e prosseguir com as conquistas, podemos entregar um país diferente para nossos filhos e netos. Essa é a nossa responsabilidade.”

(José Luiz Frare e Junior Barreto, da Contraf-CUT, e Rodrigo Couto, do Sindicato de Brasília)

Walmar Pessoa
Author: Walmar Pessoa

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